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Rio, 6 de agosto de 2016. O Sol nunca se põe

Um ano antes de morrer, o Ivo Pitanguy publicou um livro com o título Viver Vale a Pena, que abre com uma frase que faz pensar: envelhecer é uma glória reservada a poucos…

Corta (com trocadilho para o cirurgião): de 2005 a 2009 eu era um dos coordenadores da Casa do Jornal do Brasil durante a FLIP, em Paraty. E em julho de 2009, o tema era a presença França-Brasil nas letras, fotografia , cinema, estética, moda, cosmética e beleza.

Convidado: Ivo Pitanguy.

A sala repleta, gente pelo chão bem ao estilo Paraty na feira do livro (me lembro da Maitê Proença esticada embaixo do vão da escada) e, de repente, entra “o homem”. De preto, como gosta de se vestir. Baixo e atlético, um sorriso-leve e permanente; chega e senta-se num banquinho alto, ao meu lado.
Eu olhei em volta, gente, gente, e pensei: não vou “deixar barato”. Um dos temas é beleza?  Então lá vou eu:
— Mestre Ivo, o que é a feiura?
Três segundo de silêncio, um pouco de surpresa, um pouco de reprovação no sentido de que as pessoas gostam “do a favor” das celebridades (quem gosta de desmanchar prazer é repórter!) mas ele, certeiro como um mergulho de gaivota, não se faz de rogado.
— O sapo acha a (sua) sapa… bonita .

Mais três segundos de silêncio e a plateia veio abaixo. Os aplausos saíram pela porta e rolavam pelos pés-de-moleques que ajudavam os escravos a escapar da cavalhada portuguesa…

Bingo!

Assim era esse mineiro-carioca-angrense-polinacional que quanto mais vintage se tornou mais multimidia ficou. Até porque foi um dos brasileiros mais conhecidos no exteerior, no seu tempo. Primeiro, porque a sua marca é a cirurgia plástica, num mundo de superegos, egotrips, praticantes de selfies e outros milhares de “viciados em si próprios”. E  a cirurgia plástica é uma segunda chance… O primeiro Pitanguy.
Mas além do bisturi estético, ele criou na Santa Casa, em 1954, o Serviço de Cirurgia Plástica e Reparadora, gratuito, graças ao qual uma legião de prejudicados (nascimento ou acidentes)  passaram a levar vida normal.
Nascia o incomparável humanista.

Na sequência, desenvolveu a técnica de cirurgia das mãos, pioneira no país. E cujo ambulatório devolveu ao trabalho e ao amor milhares de mãos decepadas.

Mas esse é o professor de medicina, o segundo Pitanguy.  Que malgrado uma vida social intensa, era um trabalhador incansável. Tanto que além de cirurgião (60 mil operações?) dava aulas, escrevia — 900 trabalhos publicados e mais de mil cursos ministrados.

Virtù e fortuna, como diria Maquiavel.

O terceiro Pitanguy, com quem convivi nos últimos 10 anos de sua vida, era a síntese do “homme du monde” — que falava e lia em cinco idiomas, mas que se precisasse se comunicar com dez marcianos, se comunicaria com os olhos e com as mãos como um clone do Marcel Marceau — mas que se transformou em um homem simplificado, preenchido de serenidade, sabedoria e ritmo.

Conversador inesgotável, gourmet, apreciador de bons vinhos e champagnes, de quadros e de livros, que servia aos amigos — dos quais tive o privilégio de me incluir, repito, e não só dele como do filho Helcius, o mais dinâmico operador de relacionamento dos cinco continentes! — com um raro prazer de vê-los (ver-nos) apreciar cada raridade que oferecia com prazer. E o que é mais assombroso, sem perder a paixão do/pelo convívio com todos as escalas da natureza: os humanos, os bichos, as plantas, as águas, as nuvens…

Por isso, ao me despedir desse gigante que partiu para outro plano, recorri à saudação que fez Neruda no enterro de Picasso: há pessoas dentro das quais o Sol nunca se põe.

E Pitanguy foi uma delas.

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