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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 28 de setembro de 2016. A onda grega e em diante

Embora a vinha seja mais velha do que a História, o vinho (só!) começou a ser produzido há cerca de 4 mil anos. Segundo alguns pesquisadores, na Ásia Menor — entre a Pérsia e a Armênia, no Cáucaso.
Mapa do vinho na antiguidade

Segundo outros, na Grécia. Tanto que o primeiro pai do vinho foi Dionísio, filho de Zeus, e deus da vegetação e do vinho. O certo é que a Grécia foi o primeiro lar do vinho. Em 2.500 a.C. Foram encontradas grainhas (sementes) de uvas em túmulos antigos. Na Ilíada, Homero também descreve muitas cidades e regiões da Grécia como produtoras de vinho e elogia as suas tradições na produção desta bebida.
Na Grécia Antiga, o vinho era utilizado não só como bebida, mas também como medicamento. Era servido em copos de várias formas e tamanhos, cada um com um nome diferente. Vasos como as ânforas (ver abaixo) eram utilizados para servir o vinho no Symposium. As Kratiras (krater) eram vasos largos, de excelente qualidade, usados para armazenar o vinho. Um dos mais magnificentes kraters e também um dos mais bem conservados, está exposto no Museu Arqueológico de Salonica, uma peça da Escola de Praxíteles.
Obs: esse parágrafo é de autoria do site internacional Hello Net(work) produzido em Portugal.

Além de Homero, Platão e Xenofonte, entre outros formadores de opinião da Antiguidade, falaram dele em prosa e verso, exaltando as suas virtudes. Tanto que além dos simposiuns, ele era bebido em cerimônias religiosas, em libações pagãs e na terapêutica médica, como receitava Hipócrates (o pai da medicina) a seus pacientes.

Da Grécia o vinho partiu para a Itália e “mudou de deus”. De Dionisio para Baco, aqui magistralmente pintado por Caravaggio. Baco, por Caravaggio

Da Itália, para a Península Ibérica. Depois entrou no mar-oceano e foi pros quatro cantos do mundo.

Os vinhos naquela época eram doces, porque diluídos em água ou mel. E às vezes ainda se adicionava resina de pinheiro (sobretudo em Santorini, na Grécia). Tudo para não avinagrar logo, porque vinho exposto ao oxigênio é o vinagre de amanhã. A palavra “vinaigre”, em francês, é a fusão de “vin aigre”. Vinho azedo, amargo.

E como a garrafa (e o vidro soprado) só teve início por volta de 1.400 da nossa era, o vinho era guardado em ânforas e vedado com estopas umedecidas em azeite.
anforas com vinho

De volta para o futuro: na Grécia contemporânea, são cultivadas cerca de 250 variedades de uvas em quase todo o continente e em todas as ilhas. No norte da Grécia, as áreas de produção de vinho mais importantes são Naousa, Goumenisa, Amynteo, Siatista e Halkidiki. Já na Macedonia (noroeste), são produzidas as castas Xynomavro, Moshomavro, Athiri, Agioritico e Assyrtiko — o meu branco preferido de Santorini.
uvas assyrtikos
cujas vinhas são plantadas sobre um solo vulcânico e poroso, formado por lava, xisto e pedra-pome.

As outras ilhas e castas ficam para a próxima.

E uma última consideração: os vinhos da Grécia ainda são pouco conhecidos no Brasil. Segundo a Revista Adega, o que “é uma pena que poucos rótulos sejam trazidos por bons importadores. Em parte, é compreensível por se tratar de um vinho que nunca alcançará volume de produção para competir em preço com outras potências do mundo (a Grécia inteira produz menos vinho que a região de Bordeaux, e de maneira muito mais fragmentada). Mas é justamente na exploração da riqueza de seus inúmeros terroirs e uvas únicas que nasce um arsenal invejável a sommeliers e irresistível a amantes do vinho”.

Outra: a dificuldade do alfabeto grego nos rótulos foi superada por muitas vinícolas que já brilham nos Estados Unidos e no oriente. Os nomes das variedades que a princípio parecem complicados tornam-se familiares rapidamente, e o turismo crescente de brasileiros deve fazer o resto para que os vinhos gregos ganhem o espaço que merecem em nossas taças.

Saúde!

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Rio, 22 de setembro de 2016. O Rio em flor

Ando pelo calçadão de Copacabana, inaugurando a luz calma do primeiro dia de primavera (prima + vera = primeiro verão) e “encontro” o nosso Drummond, o poeta-oceano, sentado, sereno, de bronze …com a fitinha do Bonfim no pulso. Atrás o Atlântico, a África, as lendas e crendices.
20120916-Drummond com a fita do Bonfim

A fita original foi criada em 1809, tendo desaparecido no início da década de 1950. Conhecida como medida do Bonfim, o seu nome se deve ao fato de medir exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, postada no altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.

A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII. A medida era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão. E o acabamento feito em tinta dourada ou prateada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma moeda de troca: ao pagar uma promessa, o fiel carregava uma foto ou uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo (ex-voto).

20151019-Fitas amarradas no gradil
Como lembrança, então, adquiria uma dessas fitas, que simbolizava a própria igreja. Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim.

Não se sabe quando se deu a transição para a atual fita, de pulso. O certo é que lá pelos meados da década de 1960 esta nova fita já era comercializada nas ruas de Salvador. Foi adotada pelos hippies baianos, como parte de sua indumentária. Daí por diante ela migrou para outros pulsos e, segundo os entendidos, cada cor simboliza uma divindade do candomblé.

Cores para cada Orixá.

Verde: Oxossi
Azul claro: Iemanjá
Amarelo: Oxum
Azul escuro: Ogum
Colorido ou rosa: Ibeji(erê) e Oxumaré
Branco: Oxalá
Roxo: Nanã
Preta com letras vermelhas: Exu e Pomba gira
Preta com letras brancas: Omulu e Obaluaê
Vermelha: Iansã
Vermelha com letras brancas: Xangô
Verde com letras brancas: Ossain

Por sua vez, a fita branca traz paz, calma e sabedoria; a amarela, prosperidade e otimismo; a azul, tranquilidade e harmonia; a vermelha, desejo; a verde, esperança; a roxo, saúde e a rosa, carinho.

Fico em frente à estátua: atrás o Rio. O Rio em sol, cantando por Drummond.

Guanabara, seio, braço
de a-mar:
em teu nome, a sigla rara
dos tempos do verbo mar.

Os que te amamos sentimos
e não sabemos cantar:
o que é sombra do Silvestre
sol da Urca
dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.

Guanabara, saia clara
estufando em redondel:
que é carne, que é terra e alísio
em teu crisol?

Nunca vi terra tão gente
nem gente tão florival.
Teu frêmito é teu encanto
(sem decreto) capital.

Agora, que te fitamos
nos olhos,
e que neles pressentimos
o ser telúrico, essencial…

E vai por aí: é longo. Mas Drummond não tem pressa: cansei de ser moderno, agora serei eterno! Drummond no por do sol

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Rio, 20 de setembro de 2016. O Estado do Rio se reiventa

Com água na boca.
Por exemplo: escargô fluminense?
escargot

Sim senhores. A helicicultura é um negócio crescente em Bom Jardim, Duas Barras, Maricá e, principalmente, em Petrópolis (Posse), com ótimos resultados.

Mas tem mais: mar e lagoas, serras e planícies, campo alto e várzea, roçado e grandes plantações, árvores e raízes, hortas e bosques, tudo produz insumo à espera de pesca, colheita ou caça – elaboração ou industrialização, manuseio ou máquina — para se transformar em “iguaria fluminense”.
A ser degustada in loco, a até 3 horas do Rio, como no projeto Rio +3, que a Secretaria de Estado de Turismo do RJ lançou em português e espanhol Rio + 3

ou nos grandes centros. Como o Rio, onde os restaurantes Navegador e Bazzar-Ipanema (para citar os emblemáticos HUBs do terroir fluminense), das minhas queridas amigas Teresa Corção e Cristiana Beltrão se esmeram em apresentar como proposta da nova onda gastronômica: comida local e o melhor do simples..

Nem por acaso, a revista RioShow desta última semana de janeiro (2016), que é encartada no O Globo todas as sextas-feiras, abre a matéria de gastronomia mencionando os mariscos que são servidos nos melhores restaurantes do Rio. Lá estão o Ten Kai, o excelente japonês de ipanema; o Nomangue, o Satyricon, o Birigite’s e o Dom Camillo. Eles vêem diretamente do mar ou das fazendas
ostras e vieiras no Rio
São vieiras, mexilhões e ostras que nascem e são criados nas fazendas marinhas da Costa Verde e na Costa do Sol e transportados com todos os modernos cuidados técnicos. E pensar que todo esse universo ou não existia, ou estava restrito a um consumo medíocre há menos de 15 anos!
fazendas marinhas

Na linha “natureba”, o Bruno Calixto do Boa Viagem, publicou matéria sobre um circuito gastronômico à beira da estrada RJ-116, no caminho de volta para o Rio, que começa em Mury, na Fazenda Trilhas do Araçari, que oferece experiências vegetarianas a partir de uma horta 100% orgânica em que o visitante colhe os ingredientes que almoçará no restaurante da casa-sede. O cliente recebe uma tesoura e um balaio de palha para “ir às compras”, segundo o jornalista.

Obs: esse parágrafo foi atualizado em 25-2-2016, a partir d reportagem na Revista Boa Viagem.

Ou seja, a diversidade do seu território, dividido politicamente em 92 municípios, se transforma em convergência quando consideramos o fornecimento de “conteúdos” que vão se transformar em ingredientes para consumo de comidas e bebidas – cerveja e cachaça, sucos e sumos, salgados e doces, hortaliças e ovos, “tradicionais” ou orgânicos — nas pousadas, restaurantes, delis, supermercados e até nos food-trucks, tão na moda.
Sem esquecer a ovinocultura (carneiros e ovelhas), em franca expansão em Barra do Piraí.

A terceira edição do prêmio Maravilhas do Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, lançada em dezembro de 2015, apontou os 12 tesouros gastronômicos mais votados no ano passado.
Da Água – Vieiras (Ilha Grande/Angra dos Reis),
Cachaças – Coqueiro Ouro (Paraty),
Cafés – Tassinari Reserva Especial (São José do Vale do Rio Preto),
Cervejas – Ranz Capineira (Lumiar – Nova Friburgo),
Conservas – Mini berinjelas recheadas com nozes da Arte em Conservas (Vale das Videiras – Petrópolis),
Doces e Compotas – Geleia de morango da Doçuras da Suely (Nova Friburgo),
Embutidos – Linguiça de lombinho da Defumados Friburgo (Nova Friburgo),
Laticínios – Iogurte de leite de búfala do Rancho Lo Buono (Secretário – Petrópolis),
Mel – Mel silvestre do Apiário Amigos da Terra (Nova Friburgo),
Queijos – Queijo de ovelha curado tipo amanteigado do Sítio Solidão (Miguel Pereira),
Da Terra – Banana agroecológica (Vargem Grande)
Pastas e Patês – Patê de fígado de aves da Green Man Farm (Inconfidência – Paraíba do Sul).
Observação: segundo o site www.obagastronomia.com.br, estes finalistas receberam cerca de 40 mil votos populares.

Além dessas matérias-primas, os pontos de gastronomia distribuídos pelos 43,8 mil Km2 de área territorial que balizam o Estado do Rio, encantam e atraem tanto os turistas e visitantes que vão conhecê-los in loco, quanto os restaurantes do Rio e dos grandes centros que se transformam em entrepostos dessas matrizes do interior.

Mas a lista “de importados” dos municípios é vasta: empadinhas e embutidos, trutas (naturais ou congeladas), peixes, mariscos “ainda vivos”, como dissemos, camarões, patos e marrecos, raízes e frutos, chutneys e chuviscos, queijos e presuntos, ervas orgânicas, mel e mais produtos sazonais. Eles compõem esse arsenal de ingredientes que nas mãos de cozinheiros e chefs, cada dia mais profissionalizados, põe água na boca – com trocadilho – dos gourmets e gastrônomos.
Duas universidades fluminenses; a UFRJ, pública e a Estácio de Sá, oferecem cursos concorridos de gastronomia. E a palavra de ordem é tecnologia. Tanto para os alunos quanto para os agricultores (da terra e do mar!) que se informam e aprendem o mais atual sobre nutrientes, controles de pragas e pestes, modos de gerenciar a lavoura e a água, por aí.

Melhor dos mundos? Não. Ainda falta. O que, por exemplo?

Eu diria: produzirmos vinho e azeite de qualidade competitiva.
Mas esse é outro menu!

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Rio, 15 de setembro de 2016. Do pé na jaca à moderação

Até há uns 20 anos atrás (e muitos outros para trás), era comum o bom cliente chegar a um restaurante estrelado para jantar (e para almoçar, também), pedir um uísque (ou mais) no bar e, na hora de partir para a comida, encomendar um bom vinho. No lugar do uísque podia ser um Dry Martini, Negroni ou outro havy drink da moda. O vinho era tinto, em geral.

Pergunto: as pessoas tinham mais resistência ao álcool? A sociedade era mais tolerante com os amigos(as) “altinhos”? Não sei. Sei que esse modelo em restaurantes e no “âmbito das refeições” é cada vez mais raro, porque o mundo deu uma baixada de bola geral (fora as exceções, é claro — e escuro). O usual é que quem vai de destilado, vai de destilado até o fim e escolta as refeições com água, sucos ou refrigerantes.

Mas, e por isso mesmo, surgiu uma nova geração de apreciadores de fermentados que pedem uma cerveja (nunca um chope) como drinque e o bom e saboroso vinho para harmonizar com a comida. Boni e Ricardo Amaral estão nessa lista. E eu, às vezes. Os franceses, no verão, quase sempre. vinho e cerveja

Bom, falar de vinho é o que temos feito há quase 20 anos neste espaço.

Vamos falar de cerveja?

Assim como o vinho, a cerveja é proveniente do antigo Egito. Inscrições em hieróglifos e ânforas testemunham o gosto daquele povo pelo afty e pela hnqt.
hieróglifos sobre cerveja

Segundo o pesquisador Lucas Ferreira, no seu Viagem ao Egito, a cerveja era parte da dieta cotidiana dos faraós há mais de 5.000 anos. Ela era apreciada por adultos e crianças. O uso da cerveja na sociedade egípcia, no entanto, ia muito além do que apenas como bebida. Muitas vezes, era prescrita para tratar várias doenças. Considerava-se a cerveja o presente mais adequado para se dar aos faraós egípcios. E estes a ofereciam aos deuses.

E o que é a cerveja?

É o resultado de uma fermentação alcóolica preparada com o mosto de algum cereal maltado, sendo o mais popular a cevada, embora possa-se usar o trigo, arroz, milho, aveia e centeio, também. Número dois: a água. Como sempre, elemento determinante. Três: por volta do ano 700 dC, houve a introdução do lúpulo: que fez toda a diferença. O lúpulo é uma trepadeira de origem europeia que tem parentesco com a canabis embora não possua propriedades entorpecentes.
a flor do lípulo

Usa-se a flor do lúpulo para acrescentar um gosto amargo que equilibra a doçura do malte e possui um efeito antibiótico moderado, que favorece a atividade das leveduras da cerveja. E para evitar que ela “envelheça” rapidamente.

Mas além do lúpulo, dezenas de estirpes de fermentos, naturais ou cultivados, são utilizados pelos cervejeiros, o que resulta em duas famílias principais de cervejas: as lagers, de baixa fermentação, com aroma suave e teor alcoólico entre 3% e 5% e as ales, de alta fermentação e sabor frutado, apresentando uma coloração que varia do dourado ao marrom escuro.

Todas devem ser tomadas a uma temperatura entre 2º e 6º, atualmente em taças de vinho tipo borgonha. taça tipo borgonha

E se a degustação for a dois (casal, obviamente) o brinde pode ser sofisticado: a nós, que nos bastamos!

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Rio, 2 de setembro de 2016. Um programão no Rio

Imperdível.
Mauá é o nome que ficou desse figuraça: o gaúcho Irineu Evangelista de Sousa, Barão e depois Visconde de Mauá. Comerciante, armador, industrial e banqueiro. Dentre as suas maiores realizações, como se fosse pouco, registre-se a implantação da primeira fundição de ferro no Brasil, a construção da primeira ferrovia – a sua estrada de ferro — e a instalação da iluminação pública a gás na cidade do Rio de Janeiro, em 1861.
Por isso, nada mais justo do que a homenagem que o Roberto Maciel prestou a este homem que se alimentava mal, rapidamente, mas que transformou o Rio-Colônia em Rio-Gourmet.
Por que?
Porque a sociedade carioca, que até então só recebia parentes e convidados para almoço (à noite se recolhia à trilogia do silêncio: casa, caserna, convento e se contentava com uma sopa de cajú gelada), passou a receber para saraus que entravam pela madrugada.
Com a iluminação, a cidade se acendeu junto.
O carioca começou a praticar gastronomia, isto é, comer socialmente, na companhia de amigos, compartilhando a experiência do prato e do copo fora do anel familiar. Companheiro vem de cum panis: aquele que divide o pão. Nem por acaso, datam desse fim de século XIX as primeiras confrarias da cidade e as confeitarias: Colombo, Cavé e outras.
Por isto, repito, a homenagem ao “barão” (detesto o título de visconde), com um bistrô bem brasileiro, no alto do museu mais alto e mais bonito do Rio, na praça que leva o seu nome e de onde ele “observa” o novo Boulevard Olímpico e o seu entorno, é um resgate. Na foto a bela perspectiva do museu MAR.
Praça Mauá

Parênteses, aliás o Barão inspira gastronomias… Em 2012, o nosso conselheiro e amigo Paulo Roberto Direito (na foto com a sua vice, Maria Luiza Nobre), criou a Confraria do Barão, constituída por membros do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ, mas incorporando convidados da comunidade gourmet do Rio.
Maria Luiza Nobre e Paulo Roberto Direito
Os almoços são sempre realizados no restaurante Bazzar, em Ipanema, com cardápios temáticos, valorizando sempre a culinária e os ingredientes da cozinha regional fluminnse.
Os almoços são trimestrais. Somos, atualmente, cerca de 35 confrades.

Sim, mas e o programa?
O programa é “visitar” o novo Rio 2016 que fica, aquele “para além das Olimpíadas”, como dizem os portugueses, que o competente prefeito Eduardo Paes preparou para os cariocas de todos os pontos cardeais da cidade e os que se tornam cariocas vindos do outro Brasil, ou de fora, ao compartilharem a Cidade que feriu o velho e o feio, para mostrar que o seu sangue não tinha se coagulado.

Descer a Av. Rio Branco (a numeração começa com o Nº 1, na Praça Mauá) de VLT, partindo do Santos Dumont ou da Cinelândia e flanar com os olhos pela arquitetura dos prédios, a cara de Belle-Époque francesa, observando as calçadas e as gentes desse agora quase boulevard, a artéria inaugurada em 1906, pelo prefeito Pereira Passos, para ligar o Rio “de mar a mar” (com trocadilho com o museu!)
Saltar na Parada dos Museus e caminhar até o museu (visível desde Niterói!).
Sexto andar.
Primeiro, visitá-lo. Para abrir o apetite.
Depois, reservar mesa no bistrô, porque o restaurantecom está sempre cheio (bem haja!), inclusive de estrangeiros.
Sala Cheia

Vejam, agora, o alguns pratos do menu, brasileiro — sem ser xenófobo. Exemplo? Entre as bebidas, por exemplo, lá estão o Armagnac e o Calvados!!!
Armagnac
Mas há, também, uma cachacinha Veja cuja garrafa parece de conhaque (e servida por um maître mais elegante do que o Fred Astaire)
Cachaça Vega
ENTRADAS
CAPUCCINO DE FEIJÃO VERDE
PASTEL DE MINAS CURADO
BOLINHOS DE CARNE SECA
SALADAS
PEITO DE PATO CURADO,com salada exótica de manga e castanha de caju
ABÓBORA COZIDA EM ESPECIARIA,gratinada com brie, amêndoas e mix de folhas
LÂMINAS DE PUPUNHA E SALADA DE BACALHAU,com azeitonas, tomate assado e cebolinhas
CARPACCIO DE CARNE DE SOL,com abóbora e queijo coalho
PRATOS
PICADINHO DE CAJU (VEGANO) com ovo orgânico e farofa de shitake
NHOQUE DE MILHO, com lâminas de palmito ao molho queijo canastra
NHOQUE DE BANANA DA TERRA, ao molho de rabada e agrião
MIGNON DO SOL, entremeado com queijo manteiga, cebolinhas e banana grelhada farofa crocante
MEXIDÃO DE MIGNON DE SOL, com feijão verde, queijo coalho, couve, ovo e alho
LÍNGUA AO VINHO TINTO,com crocante de cebola roxa e arroz cremoso
SOBREMESAS
CARTOLA BEIJUPIRÁ,banana grelhada e gratinada com queijo, açúcar e canela
ABACAXI COZIDO
ARROZ DOCE
CUSCUZ COM TAPIOCA COM BABA DE MILHO VERDE

Boa carta de vinhos e cervejas. Drinques antigos: Cosmopolitan, Dry Martini, Manhattan…

Bom passeio, bom almoço. Ou boa digestão, se o cruzeiro de VLT for ao inverso.

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Rio, 1º de setembro de 2016. O Brasil é extra-ordinário.

Se não, vejamos.

E vamos começar pela vinda da Família Real portuguesa para o Rio de Janeiro, transferindo pela primeira vez na história das monarquias europeias um reino secular para fora — e longe — do seu território.
Uma bênção para o Brasil. A seguir, e na esteira desse mesmo século XIX, uma circunstância inédita no DNA dos regimes jurídicos do mundo: o Brasil foi, em menos de 100 anos, colônia, reino, império e república.

Vida que segue.

Em 194 anos de Estado independente, perderam seus “tronos” um imperador e seis presidentes da República. Sem nenhuma hemorragia da população.

Primeiro, D. Pedro II e, como sempre, ao fim de um processo que só “o palácio” não viu. A abolição da escravatura (nem por acaso, um ano antes, 1888) exacerbou a frustração dos “barões do café” e de toda a fidalguia rural com relação ao regime, que lhe sonegava assim a mão de obra grátis. Some-se a essa falta de sustentação o fato pessoal (tem sido sempre assim: falta de sustentação, ou das elites, ou do parlamento, ou do exército, ou do povo, ou tudo somado e… o temperamento do nº 1): o imperador, do alto de seus 58 anos de chefia do estado, dava sinais de fadiga dos materiais.

Diabético, precocemente envelhecido, cada vez mais avesso à liturgia do poder — uma maçada! — via e ouvia cada vez mais o sopro dos ventos republicanos. Tanto na vizinhança: a Argentina era república desde 1816 e o Chile dois anos depois, quanto na leitura de suas referências intelectuais. Os Estados Unido, por exemplo. O mantra de Abraham Lincoln no seu discurso de Gettysburg, governo do povo,
pelo povo, para o povo,
foi proferido em 1863 e mexeu com imperador. E o fez pensar. Mas não era só ele que ficava “a cismar” nas noites geladas de Petrópolis: os homens de farda que frequentavam uma geração de jornalistas e políticos antenados com o mundo, sabiam que a proclamação da República, no Brasil, era inevitável.

Faltava só o Último Baile da Ilha Fiscal, seis dias antes…
última foto de D. Pedro II no Brasil

Mas, na partida e no exílio, ele foi de uma dignidade exemplar.

Segue-se o primeiro presidente eleito a não terminar o seu mandato. Wahington Luiz, um paulista­de Macaé, RJ, presidente de 1926-19­30. Tinha a soberba das elites paulistas, sua origem política. Quis impor o seu
sucessor (Júlio Prestes) e foi deposto por uma revolução de tenentes e políticos gaúchos que mobilizaram o país de norte a sul. A mídia veio a reboque. Viveu anos nos EUA e Europa.
Washington Luiz deixando o Palacio Guanabara
Detalhe curioso dessa foto. Ela foi clicada pelo então estagiário Roberto Marinho, que se postou na saída do Palácio Guanabara à espreita do momento em que o solene presidente, de fraque e cartola, saísse preso a caminho do Forte de Copacabana. Furo e capa de O Globo no dia seguinte.

Assume Getúlio, o vitorioso. Positivista frio, revolucionário da segunda fase (as revoluções comem seus filhos, na primeira), um liberal na teoria e um caudilho na prática. Fazia política de esquerda, com a mão direita, como percebeu o escritor e suicida como ele, Stephan Zweig.

Mesmo sendo um homem do pampa, despojado, acabou tragado pela tentação da perenidade. Deposto pelo Exército, “exilou-se” na sua fazenda no Rio Grande do Sul Getúlio no exílio e voltou ao poder nos braços do povo, mas não resistiu aos desmandos praticados à sua sombra (“por baixo deste palácio corre um mar de lama”).

Preferiu acionar o gatilho três dedos abaixo do coração e sair da vida para entrar para a História.

Vem Jânio, o fenômeno midiático (em 13 anos saiu de vereador a presidente), mas a solidão de Brasília, a tentação totalitária ­­ e o álcool, ­­ o fizeram enviar ao Parlamento a sua renúncia, apenas sete meses após a mais espetacular vitória nas urnas da história republicana brasileira, até então.

Assume o seu vice, um moço fazendeiro, rico, provinciano: João Goulart (Jango). Governou aos trancos e barrancos e caiu porque como genialmente o definiu Gilberto Amado: coitado, manda mais do que sabe.
Foto tirado pela sua bonita mulher, Maria Teresa, um mês após a fuga para o Uruguai.

Quase com o mesmo perfil imperialesco do Jânio, mas já com um marketing pessoal soprado por bambas da comunicação moderna e um equipe palaciana ávida por dinheiro e dona de métodos para acumulá-lo de matar de inveja “a rapaziada da Sicília”, ­­surge Fernando Collor, o caçador de marajás.

Deu no que deu. “Não me deixem só!”, disse, pedindo a todos os brasileiros para se pintarem de verde e amarelo. E o Brasil inteiro se pintou de preto e foi para as ruas.
Collor partindo

Renunciou meia hora antes de ser votado o seu impedimento.

E agora a Dilma. A mesma arrogância, a mesma recusa em reconhecer erros, a mesma auto-­suficiência e a vertigem de imaginar uma democracia­-direta, que funcionasse como ponte de safena entre os comícios e a opinião dos senadores e deputados (ministros nem se fala). E, para dizer o menos, negligente com o comportamento de uma usina de candidatos ao Lava Jato…
Dilma cassada

Mas lutou até a última bala para continuar presidenta.. Está muito cedo para saber qual será o seu futuro político.

É bonito? Não: dá pena. Como dizia o meu poeta português,Miguel Torga, podia ser melhor o meu (nosso, do Brasil) destino, ter o sol mais aberto em cada mão.

Mas é assim a vida. Resta crescer nessa travessia, pacificar a Nação, restabelecer a qualificação e meritocracia na administração do Estado (aparelhado pelo PT), enxugar a máquina obesa, lipoaspirar a corrupção em todos os níveis, avançar nas reformas urgentes.

Dias de permanente vestibular para o Temer.

Por isso, se um anjo surrealista me perguntasse se eu queria ser presidente do Brasil, eu responderia: claro que não. Mas peça a ele para me nomear embaixador em Portugal!

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