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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 1º de setembro de 2016. O Brasil é extra-ordinário.

Se não, vejamos.

E vamos começar pela vinda da Família Real portuguesa para o Rio de Janeiro, transferindo pela primeira vez na história das monarquias europeias um reino secular para fora — e longe — do seu território.
Uma bênção para o Brasil. A seguir, e na esteira desse mesmo século XIX, uma circunstância inédita no DNA dos regimes jurídicos do mundo: o Brasil foi, em menos de 100 anos, colônia, reino, império e república.

Vida que segue.

Em 194 anos de Estado independente, perderam seus “tronos” um imperador e seis presidentes da República. Sem nenhuma hemorragia da população.

Primeiro, D. Pedro II e, como sempre, ao fim de um processo que só “o palácio” não viu. A abolição da escravatura (nem por acaso, um ano antes, 1888) exacerbou a frustração dos “barões do café” e de toda a fidalguia rural com relação ao regime, que lhe sonegava assim a mão de obra grátis. Some-se a essa falta de sustentação o fato pessoal (tem sido sempre assim: falta de sustentação, ou das elites, ou do parlamento, ou do exército, ou do povo, ou tudo somado e… o temperamento do nº 1): o imperador, do alto de seus 58 anos de chefia do estado, dava sinais de fadiga dos materiais.

Diabético, precocemente envelhecido, cada vez mais avesso à liturgia do poder — uma maçada! — via e ouvia cada vez mais o sopro dos ventos republicanos. Tanto na vizinhança: a Argentina era república desde 1816 e o Chile dois anos depois, quanto na leitura de suas referências intelectuais. Os Estados Unido, por exemplo. O mantra de Abraham Lincoln no seu discurso de Gettysburg, governo do povo,
pelo povo, para o povo,
foi proferido em 1863 e mexeu com imperador. E o fez pensar. Mas não era só ele que ficava “a cismar” nas noites geladas de Petrópolis: os homens de farda que frequentavam uma geração de jornalistas e políticos antenados com o mundo, sabiam que a proclamação da República, no Brasil, era inevitável.

Faltava só o Último Baile da Ilha Fiscal, seis dias antes…
última foto de D. Pedro II no Brasil

Mas, na partida e no exílio, ele foi de uma dignidade exemplar.

Segue-se o primeiro presidente eleito a não terminar o seu mandato. Wahington Luiz, um paulista­de Macaé, RJ, presidente de 1926-19­30. Tinha a soberba das elites paulistas, sua origem política. Quis impor o seu
sucessor (Júlio Prestes) e foi deposto por uma revolução de tenentes e políticos gaúchos que mobilizaram o país de norte a sul. A mídia veio a reboque. Viveu anos nos EUA e Europa.
Washington Luiz deixando o Palacio Guanabara
Detalhe curioso dessa foto. Ela foi clicada pelo então estagiário Roberto Marinho, que se postou na saída do Palácio Guanabara à espreita do momento em que o solene presidente, de fraque e cartola, saísse preso a caminho do Forte de Copacabana. Furo e capa de O Globo no dia seguinte.

Assume Getúlio, o vitorioso. Positivista frio, revolucionário da segunda fase (as revoluções comem seus filhos, na primeira), um liberal na teoria e um caudilho na prática. Fazia política de esquerda, com a mão direita, como percebeu o escritor e suicida como ele, Stephan Zweig.

Mesmo sendo um homem do pampa, despojado, acabou tragado pela tentação da perenidade. Deposto pelo Exército, “exilou-se” na sua fazenda no Rio Grande do Sul Getúlio no exílio e voltou ao poder nos braços do povo, mas não resistiu aos desmandos praticados à sua sombra (“por baixo deste palácio corre um mar de lama”).

Preferiu acionar o gatilho três dedos abaixo do coração e sair da vida para entrar para a História.

Vem Jânio, o fenômeno midiático (em 13 anos saiu de vereador a presidente), mas a solidão de Brasília, a tentação totalitária ­­ e o álcool, ­­ o fizeram enviar ao Parlamento a sua renúncia, apenas sete meses após a mais espetacular vitória nas urnas da história republicana brasileira, até então.

Assume o seu vice, um moço fazendeiro, rico, provinciano: João Goulart (Jango). Governou aos trancos e barrancos e caiu porque como genialmente o definiu Gilberto Amado: coitado, manda mais do que sabe.
Foto tirado pela sua bonita mulher, Maria Teresa, um mês após a fuga para o Uruguai.

Quase com o mesmo perfil imperialesco do Jânio, mas já com um marketing pessoal soprado por bambas da comunicação moderna e um equipe palaciana ávida por dinheiro e dona de métodos para acumulá-lo de matar de inveja “a rapaziada da Sicília”, ­­surge Fernando Collor, o caçador de marajás.

Deu no que deu. “Não me deixem só!”, disse, pedindo a todos os brasileiros para se pintarem de verde e amarelo. E o Brasil inteiro se pintou de preto e foi para as ruas.
Collor partindo

Renunciou meia hora antes de ser votado o seu impedimento.

E agora a Dilma. A mesma arrogância, a mesma recusa em reconhecer erros, a mesma auto-­suficiência e a vertigem de imaginar uma democracia­-direta, que funcionasse como ponte de safena entre os comícios e a opinião dos senadores e deputados (ministros nem se fala). E, para dizer o menos, negligente com o comportamento de uma usina de candidatos ao Lava Jato…
Dilma cassada

Mas lutou até a última bala para continuar presidenta.. Está muito cedo para saber qual será o seu futuro político.

É bonito? Não: dá pena. Como dizia o meu poeta português,Miguel Torga, podia ser melhor o meu (nosso, do Brasil) destino, ter o sol mais aberto em cada mão.

Mas é assim a vida. Resta crescer nessa travessia, pacificar a Nação, restabelecer a qualificação e meritocracia na administração do Estado (aparelhado pelo PT), enxugar a máquina obesa, lipoaspirar a corrupção em todos os níveis, avançar nas reformas urgentes.

Dias de permanente vestibular para o Temer.

Por isso, se um anjo surrealista me perguntasse se eu queria ser presidente do Brasil, eu responderia: claro que não. Mas peça a ele para me nomear embaixador em Portugal!

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1 Comentário

Comentários:

  • Excelente texto Reinaldo.
    Abs

    Octavio Sampaio

    3 de setembro de 2016 às 14:28

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