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Rio, 12 de janeiro de 2017. Vinhaços e … vinhos

Sempre me perguntam e eu mesmo me pergunto — se excluídos enólogos, sommeliers ou paladares-olfatos privilegiados — alguém normal reconhece, na boca, um vinho de dois mil dólares (ou euros, ou libras — e daí pra cima) de um vinho de cinquenta “dinheiros” em qualquer uma dessas moedas, e me refiro, é claro, a teste cego, sem visualização da garrafa, safra, etc. E a minha resposta é: pouquíssimas pessoas.

Eu mesmo provei uma vez o Romané-Conti na embaixada do Brasil em Paris, acho que em 1985, oferecido pelo embaixador Antonio Corrêa do Lago e tive que fazer um esforço de prazer para valorizá-lo, na boca, tanto quanto valorizei a emoção de saber, ver, aspirar, sentir e, por fim, provar esse deus da enologia. Mas no dia seguinte, no “bistrot d´en face”, sorvendo um Medoc tranquilo, fiz um exercício de comparação — sem sucesso. Sem a obrigação de adorar o meu bordôzinho, gostei muito dele também!

Porque no fundo, vinho só tem dois: o bom e o ruim (claro que guardadas as escalas: muito bom e péssimo), isto é, o corretamente elaborado e o precário. E bebido na hora certa! Porque outro ponto que sempre me intrigou é esse: não adianta só “o outro” (vinho, champagne, conhaque, etc) estar bom; é preciso que você (a sua boca) também. De que adianta se servir do melhor foie-gras do Périgord, escoltado por um Château d´Yquém safrado, se você estiver com uma azia (com refluxo) danada, ou com aftas pela boca inteira, ou com dor de cabeça…

E esse ponto me remete a outro: quando um consultor de vinhos da equipe do Robert Parker, Michel Rolland e outros monstros sagrados da opinião (pode ser de guias) prova 20, 30 vinhos numa manhã — mesmo observada as cláusulas-pétreas da degustação: água, pão, não engolir, silêncio, isolamento, etc — quem me diz que na noite anterior ele não bebeu uma taça a mais, ou fumou, ou comeu pimenta, ou, ou, ou e o voto foi prejudicado por um desse pecadilhos secretos do comportamento humano?

Nem por acaso o proprietário da célebre Maison Taittinger — Pierre-Emmanuel Taittinger — afirma que, pessoalmente, é contra a classificação de vinhos e champagnes com notas tipo 1 a 10, ou até 100, da mesma forma que não se sai de um concerto do Zubin  Mehta atribuindo uma classificação numérica ao espetáculo, nem do filme Casablanca ou Luzes da Ribalta distribuindo 5,6,9…

Resumo: tudo é relativo. E, como dizia o Dr. Tancredo, (na sua permanente sabedoria) já eleito presidente da República na sua Fazenda da Mata, em Cláudio, lá na serra de Minas, sorvendo um Granja União Cinquentenário (e diante da minha indisfarçada surpresa), “vinho bom e aquele que a gente tem, meu filho”.

Ou seja, vinho não foi feito pra humilhar ninguém!

Em tempo: não existe o enochato. Existe o chato que escolheu o vinho para se expressar…

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