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Rio, 20 de janeiro de 2017. A cachaça e os presidentes

Em 20 de janeiro de 1567, os portugueses que expulsam os franceses “antárticos” da Baía de Guanabara com o apoio,  segundo a lenda, de São Sebastião, francês de nascimento, comemoraram a vitória bebendo cachaça (o vinho trazido nas caravelas de Cabral tinha acabado!).  A cachaça iniciava a sua saga de resgate do braço que trabalha contra o explorador. Ganhou fama, mas nao prest~igio.

Corta: o meu querido amigo e colega de trabalho Luiz Carlos Velloso,

 

    me enviou esse curioso verbete sobre expressões da cachaça, tirado da História Contada do Homem do Nordeste.

Por exemplo: antigamente, para produzir um melado, os escravos colocavam o caldo-de-cana em um tacho, com muito açúcar e o levavam ao fogo. E não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Um dia (a história é feita de “um dia/noite”) , exaustos de tantos mexer, os escravos pararam a sua faena e melado desandou.

Para evitar mais punições (podiam custar-lhes a vida), esconderam o melado no porão, longe da vista dos “senhores”. Dia seguinte, foram conferir e o melado estava azedo. Misturaram, então, esse melado estragado com o que tinham acabado de aprontar e levaram o tacho a fogo alto. Resultado: o “azedo” do melado antigo já tinha se transformado em álcool que aos poucos foi evaporando e… formou no teto do engenho goteiras que pingavam…..

Daí o apelido “a pinga”, dentre os milhares de outros substantivos da marvada! E mais: quando essa pinga caía (álcool de 50, 60 GL) nas costas em carne viva (chibatadas) desses escravos, ardia muito. Daí, também, a expressão consagrada: “água ardente”.

Durante todo o ciclo da cana de açúcar, do ouro e do café, ela foi a bebida do escravo, do negro, do pobre … do pinguço.  Mas, talvez, e por isso mesmo, como bem observou Câmara Cascudo no livro Preludio da Cachaça, publicado em 1967, “ ela assegurou a sua sobrevivência ficando com o povo.

Tanto que ela era produzida em larga escala nos engenhos de Pernambuco, Bahia, sul do Rio de Janeiro e nas Minas Gerais. Paraty chegou a engarrafar 800 mil litros por ano, no final do século XVII. E assim foi até a abolição da escravatura, quando a produção entrou em franco declínio por óbvios motivos.

cachaca destilação

De uns 90 anos para cá, contudo,  a cachaça — que já tinha saído da senzala — esticou o seu consumo para fora do botequim e da favela e veio vindo pela história do Brasil, sempre perto dos movimentos de transgressão ao establishment.  No ímpeto verde-e-amarelo da Revolução de Arte Moderna, por exemplo, em 1922 ela era (a) bebida dos contraventores da arte (Oswald de Andrade, Pagu,  Tarsila do Amaral, Anita Malftti) que bebiam cachaça em taças de champagne nos salões chiques da Av. Paulista …

Na sequência, ela marchou com a Coluna Prestes (1924-26) 25 mil km, do Rio Grande do Sul à Bolívia! Em São Paulo, nos anos 30, deu filhote:  era misturada com limão e mel (batida) para aquecer a garganta de boêmios e seresteiros expostos à madrugada e à garoa.

Por falar em São Paulo,  gracas a quatro presidentes da Republica (sendo que um power, dos Estados Unidos), mas sobretudo três deles, que fizeram suas carreiras naquele estado, ela come~cou a ser bebiba  “com a faixa presidencial no peito”. O primeiro, Jânio Quadros, correu o Brasil em campanha parando nos botecos pra tomar uma pinguinha no pingado (cachacinha em cima de cafe com leite)

Outro, Fernando Henrique, deu um gole definitivo ao assinar o decreto Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil.

Resultado: a cachaça desembarcou nos dias atuais de sua viagem de terceira-classe e foi se colocar ao lado dos valiosos produtos de consumo no Brasil e no exterior. E além de ser servida “in natura” ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui e lá fora: a caipirinha, também declarada brasileiríssima por decreto.

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.galeria de cachaças

 

 

E o terceiro, o Lula, que sempre assumiu publicamente  que operário alivia as mágoas com talagadas de branquinha.

lula-tomando-cachaca                                          ..

Mas a epifania da cacha~ca , mesmo, se deu em abril de 2012, quando a Presidente Dilma em visita a Washington assinou um acordo com o governo dos EUA pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa cachaça é um produto genuinamente brasileiro e, do outro, que o Tenessee Bourbon (uísques de milho) também é uma bebida  genuianamente (norte)americana.

Para comemorar, ambos brindaram com cachaça. Caramba!

Dilma brindando com Obama

Vida que segue: em 2013,  o IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) informou que a cachaça é o segundo destilado mais consumido no país. E o terceiro no mundo. A capacidade produtiva instalada hoje, em fronteiras nacionais, é de 1,2 bilhão de litros por ano. São cerca de 5 mil marcas registradas e mais de 600 mil empregos gerados, direta e indiretamente. Tanto a industrializada quanto a artesanal.

E além desses “picos de prestígio”, a cachaça vem ganhando um novo espaço na área cultural e do turismo, principalmente no Estado do Rio. Para nossa sorte (cariocas-fluminenses), a Primeira-Dama do Estado, D. Maria Lúcia Horta Jardim, está pessoalmente empenhada na criação do Museu da Cachaça, no Rio. Aliás, graças a ela (e outros “devotos”, é claro) foi criado o Polo da Cachaça do Vale do Café, que envolve 14 municípios da região e 15 alambiques.

Para finalizar, uma dessas contradições curiosas e sacanas da História:  São Sebastião, o padroeiro do Rio  que hoje, e este mês, se celebra até pela lenda que o cerca segundo a qual teria sido visto lutando ao lado dos portugueses na batalha final que expulsou os franceses antárticos da Baía de Guanabara, em 20 de janeiro de 1567 — era francês de nascimento. E D. Pedro I que libertou o Brasil de Portugal, era português de nascimento. E comemorou o Grito do Ipiranga bebendo cachaça assim que desceu do cavalo.

Na umbanda, São Sebastião é Oxossi. Saravá, meu santo!       

 

 

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