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Rio, 20 de Janeiro de 2017. Cachaça, meu Santo!

Não é uma data qualquer!  Há 450 anos, em 20 de janeiro de 1567, os portugueses que expulsam os franceses e seus aliados, índios e mamelucos, da Baía de Guanabara com o apoio, segundo a lenda, de São Sebastião, francês de nascimento, comemoraram a vitória bebendo cachaça, porque o vinho trazido (aos solavancos?) nas caravelas de Cabral e nos galeões da armada de Estácio de Sá — havia acabado.

A cachaça iniciava a sua saga de resgate do braço que trabalha contra o bolso explorador.

Ganhou fama, mas não prestígio.

Depois, durante todo o ciclo da cana, do ouro e do café, ela foi a bebida do escravo, do negro, do pobre, do pinguço.  Mas, e por isso mesmo, como bem observou Câmara Cascudo, “ela assegurou a sua sobrevivência ficando com o povo”.

Tanto que era produzida em larga escala nos engenhos de Pernambuco, Bahia, sul do Rio de Janeiro e nas Minas Gerais. Paraty chegou a engarrafar 800 mil litros por ano, no final do século XVII. E assim foi até a abolição da escravatura, quando a produção entrou em franco declínio por óbvios motivos.

De uns 90 anos para cá, contudo, a cachaça que já tinha deixado a  senzala, esticou o seu consumo para fora dos botequins e dos morros e veio vindo pela história do Brasil, sempre perto dos movimentos de transgressão ao establishment.

No ímpeto verde-e-amarelo da Revolução de Arte Moderna, por exemplo, em 1922 ela era a bebida dos contraventores da arte (Oswald de Andrade, Pagu, Tarsila do Amaral, Anita Malftti) que bebiam cachaça em taças de champagne nos salões chiques da Av. Paulista … Na sequência, ela marchou com a Coluna Prestes (1924-26) 25 mil km, do Rio Grande do Sul à Bolívia!

Foto da Wikipédia  

Em São Paulo, nos anos 30, deu filhote: era misturada com limão e mel (batida) para aquecer a garganta dos boêmios e seresteiros nas madrugada úmidas da garoa.

Mas por falar em São Paulo, graças a quatro presidentes da República (sendo que um, power, dos Estados Unidos) mas, sobretudo, a três brasileiros que fizeram suas carreiras naquele estado, ela começou  a ser bebida “com a faixa presidencial no peito.”

O primeiro, Jânio Quadros, que antes dos comícios entrava nas biroscas  pra tomar uma pinguinha no pingado (cachacinha em cima do café com leite), aparece na foto trocando as pernas  (Prêmio Esso). Mas nada garante que ele tenha tomado a birita.

O segundo, Fernando Henrique, deu um gole definitivo ao assinar o decreto Decreto n° 4.072/2002 que regulamentou a Lei n° 8.918/1994. No texto, se protege a propriedade da denominação da cachaça como aguardente de cana típica e exclusivamente produzida no Brasil.

Resultado: a cachaça passou a ser consumida e apreciada no exterior e pelos gringos que nos visitam. E além de ser servida “in natura”, ela transferiu o seu DNA para um dos drinques mais consumidos aqui e lá fora: a caipirinha, também declarada brasileiríssima por decreto.

E o terceiro, o Lula, (honra seja feita) sempre assumiu publicamente que operário alivia as mágoas com talagadas de branquinha.

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Mas o agrément de embaixatriz foi-lhe passado, mesmo, em abril de 2012, quando a presidente Dilma foi à Washington para assinar um acordo com o governo dos EUA, pelo qual ambos os signatários reconheciam – de uma lado, que a nossa cachaça é um produto genuinamente brasileiro  — e, do outro, que o Tenessee Bourbon (uísque de milho) também é uma bebida  genuianamente (norte)americana.

Bingo!  E, para comemorar, ambos brindaram com cachaça: a glória!

Dilma brindando com Obama (foto comigo)

E além desses “picos de prestígio”, a cachaça vem ganhando um novo espaço na área cultural e do turismo, principalmente no Estado do Rio.  A Primeira-Dama do Estado, D. Maria Lúcia Horta Jardim, está pessoalmente empenhada na criação do Museu da Cachaça, no Rio e, graças a ela (e outros “devotos”, é claro) foi criado o Polo da Cachaça do Vale do Café, que envolve 14 municípios da região e 15 alambiques.

Mais uma contradição sacana da História: assim como São Sebastião, o padroeiro do Rio que hoje se celebra teria sido visto lutando ao lado dos portugueses na batalha final que expulsou os seus conterrâneos, era francês de nascimento, também o fogoso D. Pedro I, que libertou o Brasil de Portugal, era português de nascimento e comemorou o Grito do Ipiranga bebendo cachaça …

Na umbanda, São Sebastião é Oxossi: saravá, meu santo!

 

 

 

 

 

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