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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 23 de março de 2017. Outono e Superstição

Ando pelo calçadão de Copacabana bem cedinho, inaugurando a luz filtrada desse outono macio, o céu alto, lá longe,  Drummond no por do sol   e “encontro” o nosso poeta-oceano, sentado, calmo, de bronze …com a fitinha do Bonfim no pulso. Mais carioca impossível, mais mineiro … não há.

20120916-Drummond com a fita do Bonfim

Nota: a fita original foi criada em 1809 e ficou conhecida como medida do Bonfim. O seu nome se deve ao fato de medir exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, postada no altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.

A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII. A “medida” era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão. E o acabamento feito em tinta dourada ou prateada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma moeda de troca: ao pagar uma promessa, o fiel carregava uma foto ou uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo (ex-voto).

20151019-Fitas amarradas no gradil
Como lembrança, então, adquiria uma dessas fitas, que simbolizava a própria igreja. Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim. Não se sabe quando se deu a transição para  o sincretismo (umbanda) e a sua representação das cores de/para cada Orixá.

Cores para cada Orixá.

Verde: Oxossi
Azul claro: Iemanjá
Amarelo: Oxum
Azul escuro: Ogum
Colorido ou rosa: Ibeji(erê) e Oxumaré
Branco: Oxalá
Roxo: Nanã
Preta com letras vermelhas: Exu e Pomba gira
Preta com letras brancas: Omulu e Obaluaê
Vermelha: Iansã
Vermelha com letras brancas: Xangô
Verde com letras brancas: Ossain

Resumindo:  a fita branca traz paz, calma e sabedoria; a amarela, prosperidade e otimismo; a azul, tranquilidade e harmonia; a vermelha, desejo; a verde, esperança; a roxo, saúde; e a rosa, carinho.

A propósito, desejo um bom outono a todos através desse belo vídeo, composto pelos Poetas da Cor.

PS: as superstições mais populares no Brasil, são:

– Cruzar na rua com um gato preto dá má sorte (não pronuncio a palavra com az nem torturar);- Quebrar um espelho provoca sete anos de má sorte na vida de quem quebrou;- Passar por debaixo de uma escada idem;

– Achar um trevo de quatro folhas trás sorte;

– Pé de coelho traz sorte;

– Deixar um sapato ou chinelo de cabeça para baixo pode provocar a morte da mãe;

– Abrir guarda-chuva dentro de casa pode atrair morte;

– Toda sexta-feira 13 é um dia perigoso e podem ocorrer fatos ruins para as pessoas;

– Jogar moedas numa fonte de água pode realizar um desejo da pessoa que jogou;

– Bater três vezes numa madeira pode evitar eventos ruins.

Termino pedindo um favor: não me contem nenhuma superstições nova, que eu adoto!

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Rio, 8 de março de 2017. Baco vos saúda, meninas!

Até parece uma premonição: todos os substantivos do vinho, tirando o vocábulo que o designa, são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a fermentação,  a safra, a garrafa, a taça … e a folha da parreira que cobriu Dona Eva.

Mas do Paraíso para cá, muitos litros correm por baixo da ponte e depois de alguns séculos de perfil discreto, elas vieram à tona, mas — bem do estilo — começando pelas beiras: um rosé gelado, um branquinho doce, um Portozinho para aleitar…

Mas as pipas rolaram. Hoje, milhares de mulheres bebem bons vinhos, falam de bons vinhos e operam bon vinhos. O número de enólogas, sommelières, gerentes de venda, (e aí não tem jeito, entra a melhor no Rio: Yoná) ou, simplesmente, produtoras de vinho por esse mundo afora, é impressionante!

 

E mais: nesse mesmo mundo afora, há na outra ponta uma centena de associações e confrarias de mulheres que degustam vinhos. Seleciono três, pela curiosidade. Na França, o Groupe Femmes et Vins du Monde, realiza degustações internacionais só com mulheres, cada ano em uma capital européia.

Na Itália, Maria Borio, é presidente da Associazione Nazionale Le Donne Del Vino, entidade que congrega 150 mulheres proprietárias ou casadas com proprietários de vinícolas da Itália.

No Brasil, funciona desde 2003 a Confraria das Mulheres Enófilas, com filiais em todos os estados.

 

Adiante: mas a história se faz aos saltos (alto?).

Durante todo os séculos 18 e 19, por exemplo, o vinho e o seu ofício era predominantemente masculino. Com a exceção de três legendas femininas.

A Veuve (viúva) Clicquot, a Madame Pommery e a D. Antónia, brava fundadora da Casa Ferreirinha.

A primeira, perdeu o marido aos 27 anos, bem no início do século 19, e assumiu sozinha o comando da vinícola da família. E transformou a produção e o comércio do champagne num império.

Tanto que liderou pessoalmente sucessivas comitivas internacionais, na Europa, promovendo o seu néctar. E chegou a exportar para meio mundo. Curiosidade: em 1816, as primeiras garrafas de Veuve Clicquot chegaram ao Brasil, encomendadas por carta escrita de próprio punho pelo imperador D. Pedro II.

Madame Clicquot morreu em 29 de Julho de 1866, aos 89 anos, deixando uma bem estabelecida marca de champanhe.

A segunda, também uma guerreira, é a Mme. Pommery (1819-1890), pioneira do ramo a apostar nos rótulos desenhados por artistas e no design das garrafas. E criou o primeiro champagne brut, em 1834.

 

A  terceira, foi outra mulher extraordinária: Dona Antónia (1811-1896), portuguesa, ora pois, que naufragou num rabelo (aquelas barcaças que singram o Rio Douro, levando o vinho do Porto) junto com o marido. Só que ele morreu e ela sobreviveu graças às sete saias  “em balão”, que lhe serviram de boia. Mas não se salvou sozinha: salvou o vinho do Porto, o carro chefe da Casa Ferreirinha. Ou seja: durante o ataque da praga assassina: a phyloxera,  que dizimou o pé dos parreirais nos socalcos da Régua e morro acima, ela pagou o sustento das famílias de vinhateiros até que as vinhas voltassem a dar vinhos. Foi dona de seis vinícolas, dentre elas a hoje emblemática Vale do Vallado- Vale Meão.

Depois, a mulher foi tomando conta da sua taça. No Rio, e sem essa dimensão que envolve plantações-marcas-exportações, como as gigantas europeias,  mas, também, uma pioneira, vem a minha saudosa prima Juarezita Santos, sommelière (foi a  primeira mulher presidente da ABS-Rio (1992) e co-proprietária de um restaurante que fez história,  o Quadrifoglio, com respeitável adega. Além de incentivadora do sorvete com frutas tropicais no Rio, junto com a sócia Renata Sabóia: o Mil Frutas.

Vida que segue…

Claro que a mulher não poderia estar ligada a uma bebida tão mágica, o vinho, sem emprestar a magia de ser mais mágica ainda. Ou seja: foi  e é quase um fetiche de rótulos, anúncios e vídeos.

                                                        

 

Finalizo com uma charge duplamente genial: a Mona Lisa estilizada, curtindo um “by the glass”, outra conquista da mulher na ponta do consumo equilibrado. E hoje diversificado: prova-se um branco e escolta-se a comida com um tinto.

Saúde, Meninas!

 

 

 

 

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Rio, 3 de março de 2017. Fi-lo porque quilo: Tó

Este é o último post sobre comida a quilo e seus antecedentes: o pf das pensões, os rodízios e os bufês.

Guarda do seu primo mais simples, o “por quilo”, a mesma lógica de oferecer dupla vantagem: a) para o proprietário, um baixo custo de montagem e manutenção, compras no atacado, alto giro de vendas, desperdício controlado, economia de mão-de-obra, prateleira, adega e geladeira sem estoques paralisados; b) para o cliente, velocidade no servir-se (não necessita esperar o preparo), visão de conjunto “ao vivo” da enorme variedade de escolha (e possibilidade infinita de repetição), custo da refeição inteira igual ou menor ao de um só desses pratos em um restaurante estrelado; escolha de um culinária temática e a total informalidade do ambiente.

No caso do Da Silva, portuguesa.

E inovando o estilo deste blog, com depoimentos apresentados em vídeos (nesta estréia, com deficiência amadora de qualidade técnica: perdoem!) mas com riqueza de veracidade: o próprio pai dos “Da Silva”, António (Tó) Perico, por sua vez filho de um dos mais notáveis empresários da restauração que já reinaram no Rio,  o  célebre Carlos Perico.

E ele é igual. Ri igual, tem as mesmas mãos.

Bom, o que são os DA SILVA,  ele explica neste vídeo. Ele, o veterano Carlos Perico, os precursores, parecem espíritas imaginando o que vai acontecer. Da maravilhosa mas – obviamente – demorada refeição em um restaurante três estrelas ao pós-moderno da gastronomia, há o fator timing. 

Por exemplo: segundo a Folha de São Paulo de 23 de fevereiro passado, o estrelado restaurante Eleven, da Madison Park, em NY,  reformulou o binômio alta gastronomia X experiência muita longa. Demorada. Por exemplo: o menu-degustação não ficou menor, mas ficou mais rápido.  Como? As pequenas muitas entradas chegam juntas, em grupo. Nos pratos principais, as guarnições são colocadas no centro da mesa, para compartilhar.

 

Qual o futuro próximo? Comprar ingressos para um festival gastronômico como se faz para uma temporada teatral? Um chip embutido em cada conta paga em conta de restaurante que remeta à última refeição — para repetir ou variar?

O céu é o limite. Ou o mar. Mas assim como dizia Drummond no dia em que o americano pisou na lua, em 20 de julho de 1969, “eles podem pisar na lua, mas nunca vão pisar no luar…” tudo pode mudar e se transformar na gastronomia, mas a experiência de saciar a fome e a sede com elegância, luz e som adequados, e serviço não tão veloz que pareça pressa, nem tão devagar que pareça afronta, ainda precisam de mil anos para serem substituídos com prazer.

A nós, que nos bastamos!

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