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Rio, 23 de novembro de 2017. A cozinha na porta e o salão no fundo

Antigamente a divisão de espaços e funções de um restaurante obedecia à regra clássica: salão na entrada, bar (quando havia) em um dos lados  – mas visível — e cozinha escondida lá no fundo, ou até no andar de cima. Tanto que muito freguês dos anos 50 e até 2000 (e eu mesmo) frequentou um ou muitos restaurante(s) durante anos e nunca soube, entrou ou viu aonde ficava a respectiva cozinha.

E muito menos o/a cozinheira(o)!

Depois, começou a moda das cozinhas dando de frente para a salão. Abertas ou visíveis atrás de um vidro-aquário.

Hoje é impensável um restaurante estrelado não ter um verdadeiro show-room bem visível, aonde chefs e cozinheiros trabalham como num palco para serem contemplados por todos: os presentes e os internautas. Sim, porque há, também, os efeitos especiais: espelhos-telões que reproduzem em tempo real o que se passa na cozinha. E não só naquela, mas em outras a milhares de quilômetros, como acontecia no Gordon Ramsay at Claridge’s, em Londres. Cinco tvs mostravam o que estava sendo preparado nas cinco filiais, inclusive na de Tóquio.

O mesmo vale para as adegas. É cada vez mais comum apresentar os vinhos em altos “aquários” de vidro, alguns exatamente no meio, dividindo os salões como um biombo.

E como o nível de exigência dos consumidores cresce no ritmo desenfreado dos avanços tecnológicos. Quase nada mais surpreende. Dia desses, numa degustação de vinhos chilenos aqui no Leblon, o enólogo andino tirou um celular (inteligente) do bolso e mudou a temperatura da sua cave principal … no Vale do Maipo. E disse tranquilamente: “bueno, al tiro

E todo mundo achou a coisa mais natural do mundo. Ou seja: estamos vivendo no mundo da enogastronomia uma mini odisséia no espaço, em que a comida e a bebida não são mais o insumo natural da alimentação: são uma arte, um estilo de vida.

A abertura do restaurante Next, em Chicago, recentemente, foi preparada como uma pré-estréia teatral. Houve venda de ingressos antecipados para a inauguração e os fregueses pagaram adiantado algo em torno de US$ 45 e US$ 75 por uma refeição de cinco ou seis pratos, harmonizados com vinhos adequados. Tudo registrado em iPhones, iPads, câmeras e aplicativos amigáveis. Há restaurantes que mudam de lugar; há restaurantes digitais; há restaurantes embaixo d’água.

Qual o próximo passo? Acho que uma volta radical à comida de pensão, com arroz, feijão tutu e o Ivon Curi cantando num long-play 33 rotações.

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