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Rio, 12 de janeiro de 2018. A Luminosa gastronomia carioca

A Luminosa Gastronomia Carioca

Por Reinaldo Paes Barreto

Toda cidade tropical à beira-mar é sensual, mágica, meio solta. Gulosa. E o Rio é assim. Mas também, pudera: porto de entrada de aventureiros e nobres, síntese dos mil brasís que vieram somar-se aos tamoios do Morro Cara de Cão que por aqui circulavam, a cidade fez-se metrópole lambida pelo Atlântico, untada pelo azeite do português, ardendo em pimenta africana.

Deu no que deu: dessa fabulosa sinergia, nasceu uma cozinha variada, colorida, feita no início da vitória sobre a escassez e da permanente criatividade com a qual o que sobrava na mesa do branco era reorganizado na mesa do negro.

Mas o Rio-Colônia virou Rio-Capital, e então, em vez das paneladas, comia-se arroz com camarão, além de carneiros, porcos, perus, carne de vaca, tudo isso acompanhado de muita cebola, verduras e raízes. De sobremesa, doce-de-arroz, queijo de Minas, compotas, marmeladas e fruta, muita fruta. Tanto que à noite, na clássica trilogia — colégio, convento, caserna — servia-se uma sopa de caju gelado, à guisa de ceia.

Já o Rio-Gourmet nasceu  mais tarde, em 1861 e adiante,, quando o  Barão de Mauá instalou no Rio a primeira Fábrica de Gaz, oferecendo uma alternativa à lenha. Aí tiveram início as noitadas gastronômicas, regadas à cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute e licores franceses.

Vida que segue. O português Manuel Lebrão e um sócio inauguraram a Confeitaria Colombo, a primeira confeitaria intelectual da cidade, até porque atraiu os poetas, escritores e jornalistas boêmios que fizeram de suas mesinhas de mármore uma extensão da Academia Brasileira de Letras e das redações dos joenais. O Rio afrancesava-se. Passou a ser chic o champagne e o ensino de francês nos colégios da elite. Até que com a Revolução dos Cravos,  Portugal, “exportou” para o Rio os descontentes com o novo regime. Um deles, Carlos Perico, incentivado pelo Carlos Lacerda, abriu o Antiquarius e promoveu um upgrade na culinária lusa, até então mais voltada para os imigrantes de antes que matavam saudades da “terrinha” com sardinhas, chouriços, bacalhau e vinho verde.

Nos anos 80 foi a vez dos italianos mostrarem que a mesa do velho Lácio não é feita só de mascarpone, macarrão, azeitona e pizzas.  A reação “cívica” não tardou: os brasileiros  passaram a valorizar os temáticos pratos regionais (moquecas, peixes amazônicos, além d a colorida culinária nordestina e do churrasco rodízio, sem esquecer a velha e boa feijoada).. Aí a globalização soltou as rédeas e os japoneses também desembarcaram com os seus sushis e sashimis e o resultado é que o Rio é, hoje, em matéria de restaurantes, uma babel bem sucedida! Da cozinha autoral, aos naturebas, dos botequins pés-limpos às pizzas-gourmets, passando pela sanduicheria elaborada,pe os quiosques à beira-mar, pelos gastrobares, “tudo junto e misturado” com tapas espanhóis, ceviches, creperias…e o que mais se invente.

 

 

Resumo: somos uma gastronomia criativa, plural, às vezes irregular, um pouco barulhenta e com preços quase voadores. Mas generosamente curva (sem pontas), como as montanhas, como as mulheres que maravilham o Rio.

Reinaldo Paes Barreto, colunista e blogueiro de gastronomia e vinhos, diretor da Câmara Portuguesa do Rio

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