Publicidade

Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 20 de janeiro de 2018. O Planeta Rio de Janeiro

Este artigo é uma homenagem aos dois “sebastiões” que inspiraram o pré-nome do Rio de Janeiro: o rei de Portugal da época da fundação, (1565) e o santo homônimo, que quase 2 anos depois “foi visto no mar”, ao lado dos portugueses, em batalha que expulsou os franceses da Baía de Guanabara.

 

~

(Pintura do Glauco Rodrigues)

Detalhe: no sincretismo religioso São Sebastiao é Oxossi, senhor das matas, altivo e corajoso. E ao contrário do mártir é ele quem atira flechas…

O fato é que assim começou a crescer esta “vila planetária”, que como toda cidade tropical à beira-mar é sensual, mágica, meio solta. Gulosa. Pudera! Encubadora dos mil brasís que amanheciam, a cidade fez-se metrópole lambida pelo Atlântico, untada pelo azeite do português, ardendo em pimenta africana. E nessa fabulosa sinergia cresceu uma culinária variada, colorida, feita  da vitória sobre a escassez e da permanente criatividade com a qual o que sobrava na mesa do branco era reorganizado na mesa do negro. Ou do pobre. Ou da comida de pensão.

Um dia o Rio-Colônia virou Rio-Capital e, então, em vez das paneladas, comia-se arroz com camarão, além de carneiros, porcos, perus, carne de vaca, tudo isso acompanhado de muita cebola, verduras e raízes. De sobremesa, doce-de-arroz, queijo de Minas, compotas, marmeladas e fruta, muita fruta. Tanto que à noite, na clássica trilogia — colégio, convento, caserna — servia-se uma sopa de caju gelado à guisa de ceia.

Mas o Rio-Gourmet nasceu  mais tarde, em 1861, quando o visionário Barão de Mauá instalou na cidade a primeira Fábrica de Gaz, oferecendo uma alternativa à lenha e dando início as noitadas gastronômicas regadas à cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute e licores franceses.

Vida que segue (1). O português Manuel Lebrão inaugurou a Confeitaria Colombo (1894), estabelecendo um padrão novo de elegância e bem receber.

E o Rio embarcava definitivamente na ”Belle Époque”. Afrancesava-se. Passou a ser chic beber o champagne (em francês é masculino) e comer crêpe-suzette.  Pereira Passos inaugura a Av Rio Central-Rio Branco (1905). o Champs-Élysées tropical. Uma década depois é a vez dos milionários Guinle abrirem o Copacabana Palace (1923), início de um período de glamour: cassinos, shows internacionais, artistas estrangeiros …

O fim dos anos 50 foi a vez da presença americana: mas mais na moda, no rock, nos filmes, no Cuba-Libre. Fumava-se Chesterfield, usava-se topete,  calças jeans e isqueiro zippo.

Obs: vejam que loucura: criança segurando um pacote de cigarros!

Vida que segue (2), Com a Revolução dos Cravos, (1974), Portugal, exportou para o Rio os descontentes com o novo regime, entre eles professores e gourmets. Um deles, Carlos Perico, incentivado pelo xará Lacerda, abriu o Antiquarius e promoveu um upgrade na culinária lusa, até então mais voltada para o paladar dos imigrantes do primeiro e segundo pós-guerra, que matavam saudades da “terrinha” com sardinhas, chouriços, bacalhau e vinho verde. E o carioca começou a provar comida de tasca — servida com requinte — de joelhos. A mesma açorda virou poema!

Nos anos 80 foi a vez dos italianos (Danio Braga à frente), mostrarem que a mesa do velho Lácio não era feita só de mascarpone, macarrão, pizzas e tarantelas.  A reação “cívica” não tardou: os brasileiros  passaram a valorizar os  pratos regionais/nacionais (moquecas, peixes amazônicos, além da colorida culinária nordestina e do churrasco rodízio, sem esquecer a velha e boa feijoada). E a cachaça saiu da senzala e foi pro copo de Mario de Andrade e Gilberto Freyre e a sua prima — a caipirinha – é hoje e a embaixatriz do drinque  nacional. Com a porta aberta, os japoneses também desembarcaram com os seus sushis e sashimis (“o peixe vem cru, o guardanapo vem cozido”, de minha lavra) e o resultado é que o Rio é, hoje, uma mesa globalizada que vai da cozinha autoral, aos naturebas, dos botequins pés-limpos às pizzas-gourmets, passando pela sanduicheria elaborada, pelos quiosques à beira-mar, pelos quilos da hora do almoço, pelos gastrobares do fim de tarde, “tudo junto e misturado”, com tapas, ceviches, creperias… e o que mais se apresente de outras terras… Afinal, somos o portão de entrada do Turismo brasileiro!

Balanco: somos uma luminosa gastronomia, criativa, plural, às vezes irregular, um pouco barulhenta e com preços quase voadores.

(charge do Lan que aparece hitchcockianamente na soleira da porta)

Mas generosamente curva (sem pontas), como as montanhas, como as mulheres …

 

Compartilhe:
Comentar

Comentar:

?>