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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 1º de março de 2018. Rio boa boca (parabéns!)

Antonio Houaiss dizia que se tornou gourmet porque foi criado em Copacabana nos anos trinta, aonde viviam portugueses, árabes, italianos…      e ele lanchava na casa de um, almoçava na do outro e se habitou à variedade. Característica que nasceu com o Brasil Colônia e estabeleceu o modus comendi do carioca.

Aliás, toda cidade tropical à beira-mar é sensual, mágica, meio solta e meio despreconceituosa.  E o Rio sempre foi assim. “A cidade fez-se metrópole lambida pelo Atlântico, untada pelo azeite do português, ardendo em pimenta africana” (Guilherme Figueiredo).

Mas o Rio-Colônia virou Rio-Capital do reino e comia-se arroz com camarão, carneiros, porcos, perus, carne de vaca, (além dos franguinhos de D. João!) tudo isso acompanhado de muita cebola, verduras e raízes. De sobremesa, arroz-doce, compotas, marmeladas e frutas: jabuticabas, abacaxis, maracujás e à noite — na clássica trilogia:  colégio, convento, caserna — servia-se uma sopa de caju gelado à guisa de ceia.

Já o Rio-Gourmet  nasceu  mais tarde, em 1861 e adiante, quando o  Barão de Mauá instalou na cidade a primeira Fábrica de Gás, oferecendo ao carioca uma alternativa à lenha.

E as mansões do Cosme Velho e Botafogo passaram a receber em casa, para saraus regados à cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute e licores franceses.

Ah, sim, e sorvetes. No dia 6 de agosto de 1834, tinha chegado ao Rio, vindo de Boston, o primeiro carregamento de gelo: ­­160 toneladas, envolvidas em serragem. Misturava-se suco de frutas e virou um sucesso tamanho que até as mulheres faziam fila para prová-lo — em horas certas!

Vem o Rio-República. O português Manuel Lebrão e um sócio inauguraram a Colombo, a primeira confeitaria intelectual da cidade, até porque atraiu os poetas, escritores, jornalistas e boêmios que fizeram de suas mesinhas de mármore uma extensão da Academia Brasileira de Letras e das redações dos jornais. Era (e é) um luxo.

Na outra ponta, o Rio afrancesava-se. Passou a ser chique o champagne e o vinho de Bordeaux. Nascia a primeira confraria de gastrônomos, CLUBE RABELAIS, cujo banquete inaugural “teve lugar” no dia 28 de abril de 1892 com a presença de Arthur de Azevedo, Capistrano de Abreu, Xavier da Silveira, Coelho Neto e outros. Nasce a segunda, em 1900, “A Panelinha”, fundada por um grupo dissidente cujo slogan era: “o importante é manter a linha: ainda que seja a curva” . O comissário era ninguém menos do que Machado de Assis!

Enfim, estreia o século XX. Surge o Copacabana Palace e o Cassino da Urca, os turistas e convidados fazem a alegria dos restaurantes (poucos) de luxo e dos anfitriões da alta sociedade. Azeita-se o eixo Rio-São Paulo a partir da Revolução de Arte Moderna (a cachaça entra nas rodas verde-amarelas), canta-se em francês e inglês (“muito merci, all right”), bebe-se uísque.

Vida que segue: a Revolução dos Cravos em  Portugal exportou os “descaídos” do salazarismo que promoveram um upgrade da culinária da terrinha, apresentando aos gourmets cariocas as açordas, os “arrozes” de mariscos e pato, o queijo da Serra da Estrela, a doceria de ovos, além de bons vinhos além dos verdes e bons azeites além dos em lata. Nos anos 80 foi a vez dos italianos mostrarem que a mesa do velho Lácio não é feita só de macarrão, azeitona e pizzas.  A reação “cívica” não tardou: os brasileiros  passaram a valorizar os pratos regionais (moquecas, peixes amazônicos, além da colorida culinária baiana) e do churrasco rodízio. Sem esquecer a velha e boa feijoada.  A caipirinha faz a sua entrada definitiva no paladar dos cariocas e, atualmente, dos gringos.

Aí a globalização soltou as rédeas e os japoneses também desembarcaram com os seus sushis e sashimis e o resultado é que o Rio se tornou em matéria de pontos de gastronomia uma babel bem sucedida! Da cozinha autoral, aos naturebas, dos botequins pés-limpos às pizzas-gourmets, dos árabes aos gastrobares, “tudo junto e misturado” com paellas e tapas espanhóis, ceviches, creperias, quiosques à beira-mar. E vinho servido em taça, espumante na praia…

Resumo: servimos uma gastronomia criativa, plural, às vezes irregular, um pouco barulhenta e com preços quase voadores — mas cada vez mais instigante. Já temos sommeliers preparados para as harmonizações , jovens chefs que produzem do “melhor do simplesà pirotecnias da moda, cartas de cerveja bem elaboradas e um receber que é o nosso cartão de visitas.

Afinal, ser carioca é ver a vida pelo melhor ângulo!

Reinaldo Paes Barreto é colunista e blogueiro de gastronomia e vinhos do JB Online, do Informativo da Câmara Portuguesa e membro do Conselho Empresarial de Cultura da ACRJ

 

 

 

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Rio, 22 de fevereiro de 2018. Drummond pop star

Ando pelo calçadão de Copacabana de manhã cedo, no recorte da luz com talco deste fevereiro meio esquisito, meio agosto.  E encontro o nosso poeta-oceano sentado, calmo, com a fitinha do Bonfim no pulso direito.

Nota: a fita original foi criada em 1809 e logo ficou conhecida como a medida do Bonfim, porque media exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, o destaque do altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.  A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII e a “medida” era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão, sendo que o acabamento era feito em tinta dourada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma moeda de troca: ao pagar uma promessa, o fiel incluia uma foto ou uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo (ex-voto).

20151019-Fitas amarradas no gradil
Como lembrança, então, este(a) fiel adquiria uma dessas fitas, que simbolizava “o braço de Cristo”.  Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim e não se sabe quando se deu a transição para o uso da fita no pulso. O certo é que lá pelos meados da década de 1960 esta nova “pulseira” já era comercializada nas ruas de Salvador e, de lá, em  todo o Brasil. Foi adotada pelos hippies como parte de sua indumentária e pelos  supersticiosos  de qualquer latitude nacional.

Mas tem mais!

Deu sorte ao poeta mesmo antes de usá-la. Tanto que raramente ele  fica sozinho. A estátua do Drummond hoje divide com a do Cristo Redentor as duas pontas mais emblematicas do Rio: o alto da montanha e a beira-mar. E turistas levam fotos aos lado dele como embaixo da Torre Eiffel. Inaugurada em 2002 ( eu estava lá!), a estátua caiu no bem-querer popular imediatamente. Mas o seu “making off”  é curioso! Pesquisando no Google, encontrei no blog do Instituto Moreira Salles (IMS) a historinha. Um dia de 1983, o fotógrafo Rogério Reis, da Veja, foi ao apartamento do Drummond na Rua Conselheiro Lafaiete e pediu que ele o acompanhasse ate à praia para uma pose que seria capa da revista. Chegando lá, sugeriu ao poeta que ficasse de costa para o mar. Drummond num primeiro momento não gostou e quis saber por que de costas para o mar?! E o fotógrafo o dobrou com argumentos de comunicação. Porque assim o leitor iria vê-lo — e ver o mar atrás. O mineiro não resistiu ao apelo de se vingar da árida Itabira!

Mal podia o Rogério imaginar que 19 anos depois o artista plástico (também mineiro)  Léo Santana iria usar essa foto para a escultura que eterniza o poeta em bronze. Eterniza e humaniza,  como nas obras de Rodin. Têm alma. Inspiram sentimentos familiares. E, no caso do Drummond (perna cruzada, camisa esporte),  desperta nas pessoas desejos de confidências. Camaradagem. Quase cumplicidades! (O que não acontece com generais a cavalo, espada em riste). Drummond virou o amigo-sem-pressa, o guarda-segredo, o vovô tolerante (que as crianças beijam a careca!) e o irmão de crendices (donde a fita!).

Volto pra casa pensando em como a vida às vezes arma o anticlimax. O Drummond “de verdade” que conheci razoávelmente e que o Wilson Figueiredo via entrar feito disco voador pela redação do JB para entregar a sua crônica era o sujeito mais “passa despercebido” que Minas exportou. Quase um espião se infiltrando silencioso e azul nas filas, onibus e elevadores para ouvir, interpretar, colher matéria-prima…

E a sua estátua é uma Anita, mais exibida que artista de novela, popular e querida!

Imagino que quando a noite vai alta, no entanto, ela (a estatua) também se sente só e quem sabe declama “José”.

E agora, Jose?

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…

E agora, José?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rio, 14 de fevereiro de 2018. O primeiro Dia dos Namorados

Nos dias 14 de fevereiro, muitos países da Europa e sobretudo os EUA celebram o Dia dos Namorados – Valentine`s Day.

Que lá não é só para namorados; é para casais casados há muito tempo, grandes amizades, por aí. Mas … e no Brasil?  Por que será que aqui o Dia dos Namorados é celebrado no dia 12 de junho?

Ah! (mais uma vez) a criatividade brasileira funcionou! Porque o publicitário paulista João Dória trouxe essa ideia da Europa e convenceu os comerciantes de São Paulo a apostarem no evento — Dia dos Namorados — mas… em junho. E no dia 12.  Primeiro, porque é véspera de Santo Antonio, o santo casamenteiro, o que prepara o clima de “no infinito de nós dois”, como nessa linda ode à namorada, do Carlos Lyra. Segundo, porque o mês era sempre fraco, para o varejo, porque o Dia das Mães em maio quase sempre esvazia(va) os bolsos, e um evento dessa “amplitude”, se bem trabalhado, como foi e é, turbina(ria) a cadeia emotiva das compras de cartões, presentes, bebidas, chocolates, jantarezinhos e… motéis!

Sim, mas e… São Valentim?

Bom, foi o grande “precedente” e a sua morte coincide com uma data mais antiga ainda. Vejamos: ele, um padre italiano que ali por volta do século III da nossa era, na Roma antiga, celebrava casamentos sobretudo entre os militares. Nisso, o então imperador Claudio II (que reinou depois de Calígula e antes de Nero e foi quem invadiu a Britânia, o centro-sul da Grã Bretanha no ano 43 dC) e que acreditava que os solteiros eram melhores combatentes do que os “amarrados (no que não estava inteiramente errado: haja vista este mesmo conceito para o celibato dos padres), proibiu os casamentos durante os períodos de guerra, uma constante naqueles tempos.

Mas o celebrante Valentim se rebelou contra as ordens do monarca e continuou celebrando casamentos. (Claro!), foi preso e condenado à morte. Sucede que, na cadeia, o carcereiro o procurou dizendo que a sua filha era cega (ele tinha fama de milagreiro). Perguntou se ele podia curá-la. E ele não só a curou, mas casou-se — secretamente, é óvio — com ela!

Só que não escapou da sentença e morreu no dia 14 de fevereiro, deixando para a sua amada um bilhete em que se assina “Seu Namorado”. Virou santo, mártir da Igreja . Coincidentemente, 14 de fevereiro era também a data de um antigo  festival romano chamado Lupercalia, em homenagem a Juno, deusa da mulher e do casamento.

Bingo, tudo a ver!

E como diz outra canção, “amar é tão bom!” que até as aves (e outros bichos) não dispensam. Por isso, a dica desse blog é veemente:  apreciem … sem moderação!

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rio, 8 de fevereiro de 2018. Prosecco com Morango

Aproxima-se o Carnaval brasileiro 2018 o qual — como muito bem sustenta o Bruno Astuto — está para nós como a ópera para os italianos e alemães, a moda para os franceses e Hollywood para os americano: é o nosso soft power. E falando nele, não dá para “esquecer” a sua origem sociológica,  o Carnaval de Veneza. Segundo a Wikipedia, esta festa surgiu a partir do século XVI,  quando a nobreza se disfarçava para sair à rua e se misturar com o povo.  Por isso, as máscaras são o elemento mais importante. Hoje, pra muita gente, não é para esconder a face; é para esconder a vidinha mais ou menos! Para outros, não: é hormônio mesmo!

                   

Vida que segue. Nunca passamos nenhum carnaval por lá, mas a segunda vez em que a minha mulher e eu circulamos pela Praça de São Marcos num fim de tarde em abril (1994), fomos tomar o drinque da moda no bar do Hotel Cipriani: um Prosecco con Fragola.

Acho que bebemos duas taças cada e seguimos passeando até o jantar sem nenhum registro especial sobre a mistura de Prosecco com uma fruta.  Simpático é o adjetivo que me ocorre. Aliás, mistura-se também com suco de pêssego para o famoso coquetel Bellini ou com Aperol, para o Spritz (Aperol ou Campari, Prosecco, soda limonada, gelo e uma casca de laranja a cavaleiro da taça).

Anos depois, na véspera das preparações para o Réveillon do século (de 2000 para 2001, porque não existe ano zero!) comecei a ver Proseccos em todos os supermercados, delis, etc, no Rio. No início, pelo menos, apareceu o verdadeiro: italiano produzido na região do Veneto, em Valdobbiadene ou Conegliano. E os únicos dois que têm direito à denominação de origem controlada (DOC). Mas depois, na sequência,  como para a grande maioria  queria celebrar “como rico” a entrada no 3° milênio e o barato (com trocadilho) da comemoração era o espoucar da rolha e as bolhas (ah! enquanto houver champagne haverá esperança, Zózimo), o marketing de oportunidade dos distribuidores de Prosecco foi imbatível. Arrasaram!

Foi uma proliferação horizontal, a ponto de virar sinônimo de “champanha” para muita gente (e infelizmente até hoje) como, no passado, gilette era a sinônimo de lâminas de barbear, Brahma de cerveja, etc. E começaram a surgir proseccos argentinos, chilenos e… brasileiros, com preços abaixo dos espumantes, das cavas, dos frisantes…

Um gole de história: a partir de 2009 a uva Prosecco (uma casta  branca  originária da região do Veneto, Itália) passou a ser chamada de Glera, ficando Prosecco como marca. Mas para merecer a Denominação de Origem Controlada, ele TEM que ser produzido nas regiões mencionadas acima, ou seja, produzido exclusivamente em Treviso, especialmente nas colinas entre Vittorio Veneto e Valdobbiadene ou Conegliano, na versão Brut, Extra Dry e Dry, de acordo com o açúcar residual presente que vai do mais seco, o Brut, ao mais amável, o Dry.

Embora a maioria dos verdadeiros Proseccos seja 100% varietal (com a única uva) a legislação permite um blend, ou seja, embora obrigatório colocar-se pelo menos 85% de Glera, os restantes 15% podem ser Verdiso, BianchettaTrevigiana, Perera, Glera Lunga, Chardonnay, Pinot Bianco, Pinot Grigio e Pinot Nero, também conhecida como Pinot Noir.

Detalhe: todas essas uvas devem sempre ser vinificadas em branco, pois a denominação não permite exemplares do tipo rosé ou tintos – até porque (como sabemos), pode-se fazer vinho branco de uva tinta (separando a casca escura do sumo nas primeiras 6h), mas não se pode fazer vinho tinto de uva branca.

Em tempo: a Itália produz ótimos espumantes, sendo que o mais famoso é o Ferrari (excelente, por sinal, mas caro!) e cujas uvas são cultivadas nas colinas da Lombardia.

Além dos conhecidos Lambrusco, na Emilia-Romana e Asti, adocicado, coma a uva Moscato. Conclusão: o Prosecco não é a sétima maravilha dos que gostam de “beber estrelas” (D. Pérignon) mas é um espumante possível e de bom preço.

Salute — e figli maschi (horrível!)

 

 

 

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