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Rio, 22 de fevereiro de 2018. Drummond pop star

Ando pelo calçadão de Copacabana de manhã cedo, no recorte da luz com talco deste fevereiro meio esquisito, meio agosto.  E encontro o nosso poeta-oceano sentado, calmo, com a fitinha do Bonfim no pulso direito.

Nota: a fita original foi criada em 1809 e logo ficou conhecida como a medida do Bonfim, porque media exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, o destaque do altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.  A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII e a “medida” era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão, sendo que o acabamento era feito em tinta dourada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma moeda de troca: ao pagar uma promessa, o fiel incluia uma foto ou uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo (ex-voto).

20151019-Fitas amarradas no gradil
Como lembrança, então, este(a) fiel adquiria uma dessas fitas, que simbolizava “o braço de Cristo”.  Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim e não se sabe quando se deu a transição para o uso da fita no pulso. O certo é que lá pelos meados da década de 1960 esta nova “pulseira” já era comercializada nas ruas de Salvador e, de lá, em  todo o Brasil. Foi adotada pelos hippies como parte de sua indumentária e pelos  supersticiosos  de qualquer latitude nacional.

Mas tem mais!

Deu sorte ao poeta mesmo antes de usá-la. Tanto que raramente ele  fica sozinho. A estátua do Drummond hoje divide com a do Cristo Redentor as duas pontas mais emblematicas do Rio: o alto da montanha e a beira-mar. E turistas levam fotos aos lado dele como embaixo da Torre Eiffel. Inaugurada em 2002 ( eu estava lá!), a estátua caiu no bem-querer popular imediatamente. Mas o seu “making off”  é curioso! Pesquisando no Google, encontrei no blog do Instituto Moreira Salles (IMS) a historinha. Um dia de 1983, o fotógrafo Rogério Reis, da Veja, foi ao apartamento do Drummond na Rua Conselheiro Lafaiete e pediu que ele o acompanhasse ate à praia para uma pose que seria capa da revista. Chegando lá, sugeriu ao poeta que ficasse de costa para o mar. Drummond num primeiro momento não gostou e quis saber por que de costas para o mar?! E o fotógrafo o dobrou com argumentos de comunicação. Porque assim o leitor iria vê-lo — e ver o mar atrás. O mineiro não resistiu ao apelo de se vingar da árida Itabira!

Mal podia o Rogério imaginar que 19 anos depois o artista plástico (também mineiro)  Léo Santana iria usar essa foto para a escultura que eterniza o poeta em bronze. Eterniza e humaniza,  como nas obras de Rodin. Têm alma. Inspiram sentimentos familiares. E, no caso do Drummond (perna cruzada, camisa esporte),  desperta nas pessoas desejos de confidências. Camaradagem. Quase cumplicidades! (O que não acontece com generais a cavalo, espada em riste). Drummond virou o amigo-sem-pressa, o guarda-segredo, o vovô tolerante (que as crianças beijam a careca!) e o irmão de crendices (donde a fita!).

Volto pra casa pensando em como a vida às vezes arma o anticlimax. O Drummond “de verdade” que conheci razoávelmente e que o Wilson Figueiredo via entrar feito disco voador pela redação do JB para entregar a sua crônica era o sujeito mais “passa despercebido” que Minas exportou. Quase um espião se infiltrando silencioso e azul nas filas, onibus e elevadores para ouvir, interpretar, colher matéria-prima…

E a sua estátua é uma Anita, mais exibida que artista de novela, popular e querida!

Imagino que quando a noite vai alta, no entanto, ela (a estatua) também se sente só e quem sabe declama “José”.

E agora, Jose?

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…

E agora, José?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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