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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 22 de março de 2018. Abaixo a faca de peixe!

E o garfo, também.

Porque não sei se sabem que há dois garfos diferenciados dos normais: o de peixe e o de salada.   O garfo de peixe tem um dente mais grosso que os outros e isso serve para ajudar a separar as espinhas. Já o de salada é diferente, também: têm três dentes mais largos, para facilitar a dobra das folhas.

E a faca de peixe não corta, é cega: apenas separa a carne das espinhas. Ora, como quase sempre o peixe vem acompanhado de legumes ou batata, há a necessidade de uma faca que corte. Uma faca de peixe não “encara” uma batata noisette, por exemplo e, muito menos, uns aspargos ou uma batata “ao murro”.

20120318-faca para peixe

Logo, inútil. Coisa dos anos 50 e para trás.

Aliás, garfo (colher) e faca são utensílios de mesa relativamente recentes (se considerarmos os dois últimos mil anos).

20120318-Catarina de Médicis

Quando Caterina de Médici se casou, em 28 de Outubro de 1533, com Henrique, futuro Duque de Orleans e futuro rei da França, trouxe consigo um enxoval completo com garfo, faca e colher. E encomendou a algum “cerimonialista” (?) o layout padrão de uma mesa de banquetes. Disposição essa que nos 400 anos seguintes foi seguida à risca em jantares de gala nas cortes e nas embaixadas mais sofisticadas.

20120318-o diagrama dos pratos e talheres

Curiosidade: O garfo na mão esquerda e a faca na direita vêm dos tempos de Luís XIV, já que os canhotos eram discriminados.

Parênteses: de uns bons 30 anos para cá tudo evoluiu — salvo a mesa de banquetes do Palácio de Buckingham

20120318-ballroom

— mas inglês é inglês, monarquia é monarquia e “a pátina do tempo” rende milhares de libras para a economia da UK.

Mas, voltando. E evoluiu, primeiro, em função do espaço físico tanto nos restaurantes quanto nas mesas domésticas; segundo, porque nos restaurantes estrelados o serviço é trocado depois de cada segmento (entrada, peixe, etc) e, em casa, ou é peixe, ou é massa ou é carna. Salvo as exceções, obviamente.

E,terceiro, porque num mundo prático cada utensílio tem que ser apropriado para o seu uso — e não apenas como enfeite.

Ou então voltamos à cena genial do Chaplin “repensando” a funcionalidade do garfo e dos pãezinhos.

Moral da história: abaixo a faca e o garfo de peixe, as licoreiras, a galheteiras (aqueles vidrinhos com azeite e vinagre — hoje todo mundo quer ver a garrafa com a marca do azeite, o nível de acidez, etc) — os copinhos de licor, o paliteiro e cigarreira de prata…

Ou seja, tudo o que a gastronomia moderna superou para atingir o seu grau de “o melhor do simples”, mantra da Boa Mesa contemporânea.

E não pode inspirar “raiva”, como cada vez que eu tento cortar uma cenoura com uma faca para peixe e tenho que roubar a outra, de carne, para completar a cirurgia.

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