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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 1° de abril de 2018. Coelha põe ovo?

Nâo, por favor!

Então por que o ovo e o coelho se tornaram marcas da Páscoa? Pelo simbolismo que um e outro significam para as duas maiores religiões do ocidente: o catolicismo e o judaísmo. Porque a existência está ali representada pelo ovo, véspera do nascimento e pelo coelho, cuja capacidade de gerar ninhadas é associada à necessidade das religiões de (re)produzir novos “filhos”.

O surgimento do ovo de chocolate na Páscoa, no entanto, só se deu a partir de fins do século 17, em substituição aos ovos de galinha, cozidos e pintados, que antes eram escondidos nas ruas e jardins para serem caçados pelas crianças.

E os pioneiros (claro!) foram os chocolatiers parisienses que tiveram a ideia fabulosa de fazerem ovos de chocolate, para agradar a criançada e, ao mesmo tempo, colocá-los na agenda gourmet dos adultos. E num remate de criatividade confeccionaram coelhos de chocolate, como os desta vitrine que eu fotografei na Rue de Rennes, em Saint Germain, há um par de anos.

Originário do México, onde os astecas o preparavam de forma líquida, o chocolate foi levado para a Espanha, por Cortez, em 1528. E tornou-se popular em toda a Europa no século seguinte. Mas o formato em barra ou tablete como é conhecido hoje, surgiu na Inglaterra, em 1847, produzido pela Fry & Sons. E nunca mais parou de conquistar novos chocólatras. Hoje até a China é grande importadora do “ouro marrom”.

Em 2017 a produção mundial anual foi de cerca de 5 milhões de toneladas, “adoçando” um negócio de cerca de 72 bilhões de euros. O Brasil produziu 20 mil toneladas e somos, nesta Páscoa, campeôes mundiais de oferta de novos produtos feitos de chocolate. E o crescimento de vendas deve superar 2017 em 10%.

Recentemente surgiram os chocolates varietais, elaborados a partir de um único tipo de semente de cacau, exclusiva das maiores regiões produtoras do planeta, que são: Costa do Marfim, Gana, Camarões, Nigéria e Togo, na África. Que são também produzidos no Brasil (o maior produtor das Américas), Equador, Peru, República Dominicana e Colômbia.

Vejam o mapa da produção brasileira e os campeões africanos

Esse chocolate, 100% cacau, é o preferido dos nutricionistas e médicos pelo seu efeito vasodilatador resultante do alto teor de magnésio que contém.

Bom, mas Páscoa é passagem para não só através do Mar Vermelho ( o provo de Israel) mas para dentro de si mesmo (pra fugir da escravidâo da rua — a que ponto chegamos!) e para dentro de casa, o que supõe a família, os amigos e bom vinho, (tudo a ver com a Última Ceia). Só que esse casamento vinho e chocolate é problemático, porque ambos são dissonantes do paladar. A untuosidade do cacau desabilita as papilas a identificar o impacto do vinho na boca, como o gosto de frutas secas, ou cítricas, ervas, especiarias, etc.

Recomendo: a) ou tempos diferentes, primeiro os salgados com espumantes ou vinhos de mesa e bem depois, os ovos de chocolate; b) ou harmonizá-los com vinhos doces. Como, por exemplo, um Porto tipo Tawny envelhecido para chocolates ao leite e Ruby para os amargos, ou Jerez como preferem os espanhóis, ou Sherry como fazem os ingleses, ou Banyuls e Sauternes como escolhem os franceses, ou ainda, um Moscatel de Setúbal e até o velho Grandjó, como se usa em Portugal.

E nós?  Além dos citados acima, é claro, há bons Late Harvest (colheita tardia) chilenos, argentinos e brasileiros. Ou outra bebida, como licores gelados, drinques com açúcar — ou chás.

     Imagem do “Círio Pascal” onde as letras gregas “alfa” (começo) e “ômega) (fim) se juntam ao símbolo da vela acesa

Mas o importante é celebrar esse rito de passagem — os judeus (pessah) celebram a travessia do Mar Vermelho a caminho da libertação e os católicos a travessia de Jesus pela morte a caminho da ressurreição, no Domingo de Páscoa — com espírito de vitória sobre a escuridão e de ruptura com o que “ficou para trás” , a etapa que chegou ao final.  Só assim seremos capazes de reafirmar a confiança em nós mesmos para continuarmos na estrada, redivivos, reconciliados com a transcendência, marchando com o sol bem aberto na palma das mãos, como no poema do poeta português Miguel Torga.

Aleluia!

 

 

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2 Comentários

Comentários:

  • “A untuosidade do cacau desabilita as pupilas a identificar o impacto do vinho na boca…” Acredito que o nobre redator e articulista confundiu as papilas – que ficam na boca e por isso carregam o sobrenome “gustativas” – com as pupilas, que ficam nos olhos e cumprem função visual. Embora também existam alimentos “que se comem com os olhos”…

    Mario Abreu

    16 de abril de 2018 às 17:32

    • Mário, vc tem toda razão, foi um erro de digitação que me passou. Obviamente me referia às papilas! Obrigado e abraços. Reinaldo

      reinaldo

      16 de abril de 2018 às 18:10

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