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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 26 de abril de 2018. Refeição ou Experiëncia

Sim é quase uma alternativa. Porque sempre me pergunto o que achariam as grandes cozinheiras “do tempo da vovó”  – tipo D. Benta – se fossem abduzidas e levadas a um desses restaurantes turbinados, de hoje, e vissem o chef finalizando uma costela de boi com maçarico, ou aspergindo gelo seco em cima de um suflê…

Enfartavam.

Então, vamos lá. Tecnicamente, gastronomia “ocorre” quando a comida é ingerida não apenas para saciar a fome, mas para agradar ao paladar – e outros sentidos: visão, olfato, às vezes tato – e proporcionar prazer sensorial.  Beleza. Mas os caras exageraram!  Há restaurantes, hoje, no eixo gastronomia-espetáculo, que praticam o que eu chamo de epifania gourmet. Um desfile de 10 pratos, e até mais pratos, (e não me refiro às mesas orientais), em que cada um é uma pedra de xadrez num tabuleiro cenográfico, cujo ingrediente – peixe, carne, massa – é quase irreconhecível a olho nu! Quem descobre esses aí abaixo?

 

Antes, muito antes, não era assim. Na busca pelo alimento e para escapar das feras, os nossos pré-tataravós construiram armas de caça (arpões, lanças, redes de pesca, arcos, flechas, armadilhas) e percorreram toda a escala do cru ao cozido, do perecível à conserva, do facão ao garfo-e-faca. E como observam as historiadoras Dolores Freixa e Guta Chaves, além disso, esses primeiros habitantes eram nômades e tornaram-se sedentários; eram caçadores e tornaram-se pastores. Matavam para comer e passaram a criar animais e cultivar a terra. Do excedente, iniciaram trocas — gerando o comércio. E este, junto com as guerras, dominaram outros povos, ora nos países de origem, ora formando novos países. E estes se associaram e formaram civilizações. Bingo!

Mas a prática da gastronomia acompanha a marcha das sociedades (para frente e para trás) e, de certa forma, estamos de volta para o futuro. Ou seja, antes, no campo, o fogo era o polo aglutinador. Era em torno dele que se preparavam os alimentos e se reuniam os nômades. Mais de 10 mil anos depois – hoje em dia — ele continua a boia de luz, não mais no chão, nem resultado do atrito de pedras, mas de LED em escaninhos do teto, em sancas que se equilibram, alumiando cozinhas transparentes onde chefs e cozinheiros trabalham à vista de todos, os presentes e os internautas, como em um making-off de artistas no youtube.

Já provamos as cozinhas tradicional (simples e a caprichada), a (malograda) “nouvelle cuisine”, a molecular, a autoral, o slow food, a temática, vegana, raw … Qual o próximo lance? Das duas, uma. Ou restaurantes em que os ingredientes vão chegar à mesa com etiquetas,  informando, por exemplo, que os ovos orgânicos são “pintos” de galinhas de altitude que ouvem música clássica e as carnes — com GR Codes remetendo a um vídeo mostrando o abate do boi —  ou um retorno radical ao fogão à lenha com a “velha” cozinheira torcendo o pescoço das galinhas para prepará-las ao molho pardo!

Ou a tia solteirona preparando um ensopado de jiló com rim para o rango de domingo!! Ou a empregada que já está na casa há duas gerações batendo a nata do leite numa tigela bem cedinho, pra fazer manteiga…ou, ou…

Ah, saudades do Drummond quando disse —  cansei de ser moderno. Agora vou ser eterno!

 

 

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1 Comentário

Comentários:

  • Como sempre, um belo texto, um aprendizado.
    Congratulacões.
    Parece-me hoje, um desprazer em certos restaurantes “sofisticados” nos cinco sentidos.

    AGENOR PAULETO

    2 de maio de 2018 às 10:04

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