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Rio, 2 de maio de 2018. Da Vinci, o gênio gourmet

Este dois de maio marca o aniversário de morte de Leonardo Da Vinci, há 499 anos (e aos 67 dele), na pequena cidade de Cloux, perto de Ambroise, (Tourraine), nos braços do Rei de França, François Premier. Cresceu gênio. Se tivesse nascido no século XX teria inventado o iPhone, a Internet, o Facebook, o carro elétrico, os drones e pintado em 3D numa vibe psicodélica … Era divertido, perfeccionista (imaginem!), bonito, namorador e gay, segundo Walter Isaacson, ex-editor do Times e seu mais recente biógrafo.  A sua curiosidade insana não tinha limites: foi estudando profundamente os músculos dos lábios, por exemplo, que resolveu pintar o enigmático sorriso de (uma das) sua obra-prima: a Mona Lisa.

E se, por outro lado. sabemos todos que ele pensou o helicóptero, a bicicleta, a prancha de esqui, a asa-delta, as máquinas de guerra, nem todos sabem que Leonardo foi um apaixonado por alimentos e pela liturgia das refeiçõesPara começar,  foi talvez o primeiro vegetariano — por opção — de que a história traz registro. Tanto que abriu em Florença (1476) um restaurante vegetariano em sociedade com outro grande pintor seu amigo, Sandro Botticelli, chamado A Taberna das Três Rãs, aonde — obviamente — não se servia carne de vaca/boi, nem caça.

Quebrou em um ano, o que não é de se estranhar se considerarmos que a carne, sobretudo de caça, era um símbolo de status social da época e que eles foram inovadores de mais para época. Como, por exemplo, no lugar do tradicional quadro negro bem à vista com a descrição dos pratos, o menu era escrito em pergaminho ilustrado com desenhos de Botticelli, cuja capa de um deles é essa ilustração ‘acima. E além de falirem o restaurante pegou fogo!

Mas ficou a “certeza” que uma boa mesa se faz com uma culinária descomplicada, natural, saudável e muito bem adaptada a um ambiente-cenário. Simples ou suntuoso, mas produzido. Até porque como todo artista do Renascimento o seu compromisso era com a estética. E o belo. Mas de uma forma tangível, mensurável. Ou seja,  enquanto na Idade Média o belo era transcendente, remoto, no Renascimento a beleza se desloca para o plano físico, associada à harmonia, à forma e ao equilíbrio entre os volumes. E identificável, quase demonstrável. Tanto que na sua Ultima Ceia (1495-1498), por exemplo,  pintou os pães em primeiro plano com um distanciamento calculado entre cada um.

Sobre essa sua obra, aliás, há um remate curioso que me foi lembrado pela atenta viajante, a minha prima Luciana Biscaia. Como parte do pagamento pela trabalho de Leonardo na Última Ceia, o Duque de Milão (parágrafo seguinte) ofereceu-lhe alguns vinhedos nos arredores da Basílica de Santa Maria delle Grazie — La vigna di Leonardo — que ele aceitou e “fez gosto”. Mesmo depois que deixou Milão, com a derrocada dos Sforza, pedia aos amigos para cuidarem. Só não encontrei registro do tipo de uva que crescia nesses parreirais.

       

 

Mas como consultor de banquetes foi esplêndido. Para agradar ao seu benefactor, o poderoso Duque de Milão, Ludovico Sforza,  considerado o melhor anfitrião da Lombardia (para quem trabalhou 13 anos), coordenava espetáculos pantagruélicos, em que não apenas a quantidade, mas a arte de preparar e apresentar os alimentos, com efeitos cenográficos, bem como de construir atrações que permeavam os pratos, faziam a diferença Providenciava libélulas, plantas aromáticas, fontes luminosas de água em cascata, grilos, vaga-lumes, cisnes e  avestruzes dando voltas e mais voltas nos jardins para dar movimento à paisagem que servia de moldura às mesas do salão de banquetes. E, sobre elas, água de rosas para enxugar as mãos, pequenas estátuas de marzipã, velas de diversos tamanhos, geleias coloridas e panos dobrados à guisa de guardanapos … E anotava tudo o que pensava sobre gastronomia em manuscritos que levavam o nome de “codex”. O que trata dos assuntos da mesa é o Codex Romanoff, cuja cópia foi achada em 1981.

Leonardo nasceu numa fazenda perto da cidadezinha de Vinci, na toscana, donde o sobrenome. Foi criado pelos avós paternos numa pequena propriedade que cultivava trigo e azeitonas. E a alimentação se completava com legumes e vegetais, por isso, comia-se fava e feijões, grão-de-bico e ervilha, com pão, alho, cebola, nabos e azeitonas. Além de queijo de ovelha. E, tratando-se da Itália, obviamente ele bebia vinho misturado com água desde os 5 anos.

Nada de carnes.

Frequentou o fausto dos Borgias,  a pompa dos dodges de Veneza (e do Duque de Milão, como dissemos), dos senhores de Roma, pintou a Última Ceia — pintou o 7 — e é um desses hemisférios humanos onde o sol nunca se põe, como disse Neruda de Picasso, no enterro do autor de Guernica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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1 Comentário

Comentários:

  • Maria Esther Paes Barreto Rodrigues O seu blog é sensacional, Reinaldo querido: bem escrito, informativo, ilustrado, com histórias não reveladas e muito humor!
    Nota dez, com louvor!

    Maria Esther Rodrigues

    4 de maio de 2018 às 18:08

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