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Rio, 10 de maio de 2018. O Vinho e a Sorte

Uma tarde o general Junot (aquele, da malograda invasão a Portugal) perguntou a Napoleão qual a virtude que ele mais admirava nos seus generais. E ele: a sorte!

Nota curiosa. Nessa linha (sorte), gosto do ditado popular: “nasceu de bunda pra lua”. E sabem o porquê da expressão? Ela vem de longe, do tempo dos partos feitos em casa, pela parteira. E sobretudo quando era parto pélvico em que a bundinha do bebê sai antes da cabeça, a possibilidade do recém-nascido morrer no parto era muito grande. Se conseguisse sobreviver é porque nasceu com sorte…

Pode-se dizer que para os grandes vinhos também vale (e muito) o sopro da sorte.

Exemplo Um
Dois dos vinhos mais emblemáticos de Portugal — o Madeira e o Porto (o terceiro é o Vinho Verde) — são frutos da terra adequada, do suor do vinhateiro, do talento dos agrônomos e enólogos, da qualidade das castas, do terroir, do dinheiro do proprietário e … da sorte. Vinho Madeira. No século 18, o Madeira foi o vinho mais consumidos nos EUA. Por que? Estava do lado certo da política. A Coroa Britânica só permitia que os navios ingleses procedentes da Europa rumo aos Estados Unidos transportassem mercadorias e víveres. Mas como a Ilha da Madeira, nessa época, era considerada parte da África (e não da Europa), as embarcações norte-americanos que voltavam da Europa  aportavam na Ilha, e enchiam os porões de Vinho Madeira. E lá, na “colonia” se bebia por prazer — e para sacanear a Inglaterra! Tanto que a Declaração de Independência dos EUA (4/7/1776) foi celebrada com vinho Madeira! Início da consagração.

Vinho do Porto. Quando Napoleão decretou o Bloqueio Continental (nem um país europeu podia comercializar com a Inglaterra), Portugal resolveu desafiar a França (donde, entre outras razões a invasão que deixou as tropas de Junot “a ver navios” — que cruzavam a barra em direção ao Brasil) e passou a enviar farto carregamento de Vinho do Porto para Londres, que o perfilhou e transformou esse comércio na maior entrada de divisas para Portugal no século XIX. E consagrou o Vinho do Porto para sempre!

Exemplo Dois
Há 40 anos (completados em 24 de maio passado), realizou-se em Paris a mais famosa degustação às cegas da história do vinho, que entrou para a história como o Julgamento de Paris.
Nessa noite, dois vinhos americanos sem qualquer tradição competitiva, derrotaram os seus concorrentes franceses mais badalados do planeta: Château Mouton-Rotschild, Haut-Brion, Leoville Las Cases…

Um branco vinho branco campeão e um tinto, ambos californianos. vinho tinto campeao

Ou seja, o painel de experts franceses votou no branco Château Montelena e no tinto Cabernet Sauvignon Stag’s Leap Wine Cellars, ambos de safra 1973, no primeiro lugar das respectivas categorias. Qualidade dos californianos? Sem dúvida. Mas também SORTE.

Por exemplo: segundo a Wine Spectator , uma das explicações é que os vinhos americanos estavam “mais prontos” para beber, enquanto os franceses precisariam de mais tempo para serem apreciados. Dois: dos 10 vinhos em prova, 6 eram do Estados Unidos e 4 franceses, o que acabou deslocando o centro da avaliação para o lado americano — até por cálculos de probabilidade. Três: a pressa. O evento aconteceu numa sala emprestada de um hotel onde os convidados tiveram que acelerar as avaliações, por conta de um casamento que viria em seguida. Quatro: a capacidade de avaliar e julgar de júri, mesmo composto por enólogos e sommeliers treinadíssimos, varia e depende de múltiplos fatores, como o ambiente, o humor, o clima, os alimentos que se ingeriram (antes e durante), etc. Ou seja, se a mesma prova tivesse ocorrido no dia seguinte, ou anterior, é provável que o resultado tivesse sido diferente.

Exemplo Três. Sorte e Milagre!

As Bodas de Canãa. Lá pelo anos 20 e meio da nossa Era (o d.C. começa com o nascimento de Cristo e não com a morte),  Maria e Jesus comparecem a uma festa de casamento em Canãa, na Galiléia. Quando a celebração ia do meio para o fim, o vinho acabou — o que era uma desmoralização para os noivos, pais, etc. Maria então pediu a Jesus “para evitar esse vexame”. E Jesus mandou, então, os serventes trazem 600 litros de água e os transformou em 600 litros de vinho. Comentário do pai da noiva: “todos servem primeiro o vinho bom e quando os convidados já estão embriagados, servem o inferior. Tu guardastes o vinho bom para o final”. (Evangelho de São João). Ou seja, além de salvar “a festa” Jesus enunciou um corolário até hoje observado pelos bons bebedores de vinho: o melhor sempre no fim!

Mas a sorte — como dizia Maquiavel no seu livro O Príncipe (1532) — é uma combinação de fortuna i vertu.  E o melhor exemplo da sinergia desse binômio é o  episódio em que o Paul Guetty foi entrevistado por uma repórter do NY Times e às tantas declarou que acordava sempre muito cedo.

Nisso essa repórter teve a ideia de ligar pra ele no dia seguinte às 6h da manhã, para conferir. Ele mesmo atendeu. E ela sapecou: “então é verdade que o senhor sempre acorda cedo?” E ele: “indeed”. E ela, engrenando uma falsa premissas: “quer dizer que para ficar biolionário é preciso acordar cedo?”

E o Paul Guetty na bucha: “e achar petróleo…”

Bingo!

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