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Rio, 7 de junho de 2018. Vinhos responsáveis

Esta semana comemorou-se o Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6) e a indústria do vinho cada vez mais se mostra comprometida com a redução do impacto que a sua produção possa causar na vinha, no vinho e em toda a linha de montagem humana que opera o ciclo que se inicia na terra e deságua (desvinha?! ) na taça do consumidor final. Para atingir essa “obrigação” e como propõe um interessante editorial da Revista Vinitude, do Clube dos Vinhos, datado de 2014, “as vinícolas de hoje e do futuro têm que recorrer ao uso inteligente (inclusive artificial) da mais alta tecnologia para reduzir o consumo de água, energia e combustível em todas as fases do processo; o que implica optar pela utilização de garrafas mais leves, materiais recicláveis e reciclados para a embalagem e rótulos dos vinhos. E também, e sobretudo, ter como prioridade o respeito e a remuneração pelo trabalho dos “operários do vinho” que se dedicam ao cultivo das videiras, da colheita, do processamento das uvas, da manipulação da cortiça, da vinificação …”

Mas grandes avanços já foram conquistados com a introdução do cultivo (e consumo) de vinhos naturais, vinhos orgânicos e vinhos biodinâmicos.

E quais as diferenças?

Vinhos Naturais. São uma espécie de genérico dos orgânicos e biodinâmicos. São produzidos sem nenhuma adição de sulfito. O sulfito é uma espécie de satanás dos vinhos. Mas são permitidos outros pesticidas para defender o solo e agradar ao paladar.

Vinhos orgânicos

Foi a primeira revolução. São aqueles produzidos a partir de parreiras sobre as quais não se apliquem agrotóxicos, herbicidas, pesticidas e outras químicas, para combater as pragas, corrigir o solo, etc.

A agricultura orgânica acredita que dispensar o uso de pesticidas e fertilizantes químicos faz com que a uva nos ofereça maior pureza em seus sabores e possa melhor refletir as características da terra onde foi plantada. Tanto que no cultivo de vinhas orgânicas, as ervas daninhas que crescem ao lado do parreiral são comidas por gansos, até o desenvolvimento dos cachos. Além disso, usam-se vespas para combater aranhas que furam as uvas, aveia plantada entre as fileiras do vinhedo para fertilizá-lo, insolação privilegiada para o combate os fungos – e outras soluções criativas — como plantar os parreirais na encosta que dá para o leste, porque o sol da manhã é bactericida.

No Brasil, o primeiro vinho certificadamente orgânico foi apresentado ao mercado em 1997: o Cabernet Sauvignon Juan Carrau Orgânico.

 

E nós estamos bem na fita. A Vinícola Garibaldi carimba todos os seus vinhos com o selo da ECOCER          (do Minstério da Agricultura) e as suas garrafas são 22% mais leves do que as convencionais.  Também no RGS, em Dom Pedrito, a Vinícola Guatambu montou parques solares (600 painéis) que suprem 100% da iluminação e do aquecimento das áreas protegidas.

Vinhos biodinâmicos

Estes são produtos de parreiras e cultivo quase místicos!  A agricultura biodinâmica foi desenvolvida a partir da filosofia do austríaco Rudolf Steiner que em 1924 propôs aplicar no campo a antroposofia, ou seja, um ecossistema auto-sustentável no qual os resíduos orgânicos devem ser reciclados e assim retornarem novamente ao sistema original.

Além disso, a biodinâmica obedece à influência de forças cósmicas, em especial da Lua e do Sol, para a os movimentos do ciclo produtivo do vinho: plantio, poda, fertilização, colheita, vinificação e engarrafamento. Na seca, utilizam-se algas marinhas. Nas floradas, arnica. “Não quero fazer um grande vinho: quero fazer um vinho verdadeiro”, diz um dos papas da biodinâmica, o aristocrata francês Nicolas Joly que em 1977  largou os seus negócios em Paris e foi cuidar da vinícola da família (parreiras de 1130!) —  La Coulée de Serrant – no Loire, transformando-a num laboratório biodinâmico.               

Outro case sensacional foi a passagem do mais famoso vinhedo do mundo – La Domaine de La Romanée-Conti, em 2007, — do método tradicional para o biodinâmico, com a conversão do seu sócio-proprietário, o legendário Aubert de Villaine,  para o clube da produção de “vinhos “responsáveis”.  A tal ponto,  que até o uso dos cavalos foi reintroduzido no preparo do terreno, para não “ofender” o solo, como ocorre com o uso de máquinas.

Ou seja, esses “poetas da vinha” não abraçam só um sistema de produção agrícola, mas uma filosofia de vida,  segundo a qual (como na moderna medicina) o projeto existencial deve se orientar para a prevenção – e não para a doença — que é o enlouquecimento das células. 

E vamos mais longe: um exemplo emblemático de “pensar século XXI” é a experiência da Lifford Wine Aggency que, em parceria com a também americana Californian Winery, iniciou a elaboração de um vinho ecológico,  especialmente dirigido ao mercado canadense: o Plantatree.  As garrafas são PET biodegradáveis, os rótulos impressos em papel reciclado e ilustrados com tintas orgânicas. E para cada garrafa de vinho vendida, uma árvore será plantada no solo canadense. Já a Astrid Terzian, francesa, usa garrafas de vinho refiladas. O cliente compra, bebe e leva lá para reencher pagando 1/3 do valor de face.

O elo que precisa atualmente ser melhor trabalhado é a mobilização do consumidor final  para que ele “responda” a essa mudança de relação terra- tecnologia- mercado- saúde, adotando e compartilhando, cada dia mais, de um lado,  bebendo com critério e responsabilidade e, do outro, apoiando na escolha esses vinhos ambientalmente comprometidos com a sobrevivência do planeta. E nele, dos nossos filhos, netos, bisnetos e do cacho de uvas que há de nascer sadio em 3018!

Saúuuuude – com trocadilho!

 

 

 

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