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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 26 de julho de 2018. A Confeitaria Colombo

Quatro grandes amigos foram almoçar na confeitaria Colombo, semana passada. Gostaram da comida, do serviço e do ambiente, é claro. Resolvi, então, atualizar o blog de há seis anos sobre essa referência do Rio, que este ano completa 124 anos de funcionamento contínuo. Ela foi inaugurada numa segunda-feira, 17 de setembro de l894, por dois portugueses: Joaquim Borges de Meirelles e Manoel José LEBRÃO, que chegou ao Rio com apenas 13 anos, vindo do Alto Minho. Um portuguezinho inteligente, trabalhador e intuitivo, tanto que praticava o mantra de qualquer comerciante de sucesso que se dispõe a atender o público: “o freguês tem sempre razão”.  A tal ponto, conta-se, que um dia um sujeito metido a esperto comeu dois camarões empanados no balcão e na hora de pagar disse que só tinha comido um. E o Lebrão gritou pro caixa: cobra aí um camarão com duas cabeças!

Foto do Lebrão já célebre e próspero (do site da Colombo)

Mas além disso, a Colombo começou com o pé direito. Em 1890, os “Barões do Café” exportavam o que colhiam e obviamente já não aceitavam guardar dinheiro nas fazendas (daí o nome Ministério da Fazenda) e queriam bancos. Pois bem: multiplicaram-se os bancos em São Paulo e no Rio e, aqui, ainda por cima, esses últimos anos do século XIX se caracterizaram por uma corrida à Bolsa de Valores ( a Bolsa do Rio é de 1845!), o que espalhou riqueza pela cidade. E a Colombo, pela elegância de seus espelhos e mesas, seus menus e a distinção da clientela era “o enclave” desse Rio-Paris na virada para os 1900.

O Rio, nesta largada do século XX, explodia! Pereira Passos inaugurou a Av. Central (“uma artéria que vai de mar a mar”) e lá se instalaram o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Jornal do Brasil, no nº 110, no então mais alto prédio da América Latina.  Ruy Barbosa sucede a Machado de Assis na presidência da Academia Brasileira de Letras, e aos ricos empresários da lavoura e da Bolsa, junta-se uma elite pensante que circulava pelo eixo chique da cidade — ruas Gonçalves Dias, Ouvidor, Cinelândia — sempre em busca de um pouso que oferecesse comida, bebida e cenário-platéia para seu convívio. Eram acadêmicos da ABL, jornalistas, diplomatas estrangeiros, poetas, escritores e artistas que, antes,  frequentava as confeitarias Pascoal e Cavê. Matéria-prima de ouro para o astuto Lebrão, que os atraiu para as suas mesas de mármore, com uma oferta que dilatava o ego desses “gênios” e resolvia o problema dos magros salários da maioria: o Anuário Colombo, criado em 1906. Porque como sempre sobrava espaço no catálago,  pedia “aos amigos” que escrevessem crônicas, sonetos, jingles (como o clássico do Bastos Tigre: veja o ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que viaja ao seu lado/ e, no entanto, acredite/quase morreu de bronquite/ salvou-o o Rum Creosotado), artigos e caricaturas (Kalisto, J. Carlos),  em troca de comer e beber lá … de graça. Nascia naquele momento a velha prática da PERMUTA em impressos.

Foram seus novos clientes, Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Ruy Barbosa (*), Guimarães Passos, Zé do Patrocínio, Leôncio Correia, Olavo Bilac (um verdadeiro padrinho da casa), Emílio de Menezes, Coelho Neto, Raimundo Corrêa, Francisco Leite e Bastos Tigre.

E o Lebrão não parava: em 1912, fez uma reforma nos salões com um toque Art Nouveau e mandou buscar na Bélgica espelhos de cristal, com molduras de jacarandá maciço, medindo 3,4m por 4m, e pesando cerca de 1500kgs cada, que vieram de navio fretado. As molduras e móveis foram esculpidos pelo artesão Antonio Borsoi.

(foto do site)

Dez anos depois, construiu um segundo andar com um salão de chá. E sentindo que deveria se abrir para todos os públicos, instaurou o “Five o’clock tea” (copiado do Café De La Paix, em Paris). Mas tal como lá, estabeleceu horário para o término: 6h da tarde em ponto. Porque a partir dessa hora (tal como lá!), começava a aparecer outra clientela — as madames e os seus coronéis — que ocupavam as mesinhas do fundo, em busca de outras emoções…

Data daí o início da paquera (“o velho, na porta da Colombo, é um assombro…“) celebrada bem mais tarde na marchinha Sassaricando, de Luiz Antonio, Zé Mário e Oldemar Magalhães, sucesso do Carnaval de 1952 na voz e rebolado da Virgínia Lane. Mas sobretudo no horário de almoço, seja em mesas de quatro e seis, seja em banquetes, a  Colombo era frequentada por presidentes (desde Washington Luiz, que tomava um chope duplo, para relaxar), ministros,  políticos e diplomatas.

Banquetes na confeitaria. Foto do site de 1920

E a Colombo bombando, porque como diz o Nilo Sergio Felix, Deus ajuda a quem trabalha.

Na era Vargas, era o preferido não só do presidente, mas do Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, interventores e governadores dos estados, como o Juscelino (tem lá a mesa em que ele se sentava),  Adhemar de Barros, Juracy Magalhães, Carlos Lacerda, tantos… Aliás, lá estiveram também o rei Alberto, da Bélgica e a raínha Elizabeth.

Em 1944 abriu filial na esquina de N. Sra. de Copacabana com Barão de Ipanema que funcionou até 2003 e cujo fim é perda para sempre irreparável para a alta gastronomia do Rio, embora tenha se mudado para o Forte de Copacabana.

A vida foi seguindo (o Lebrão morreu – 1933, com 65 anos), os sócios foram enfrentando dificuldades e a Colombo foi, então,  comprada pela Arisco em 1992. Mas a Arisco tinha outros interesses e pouca atenção deu à Colombo e ela perdeu o viço. Começou a fenecer e só não fechou (já pensaram se ela virasse uma casa de bingo!!!) porque o empresário-sonhador Maurício Assis juntou um par de amigos (dos quais com muito orgulho me incluo) e em 2004 comprou a sociedade, a recuperou financeiramente, a reestruturou e recolocou no primeiro plano da gastronomia de confeitaria. Contratou primeiro o Danio Braga e, depois, o chef Renato Freire para cuidar do patrimônio de salgadinhos e doces, das louças e cadeiras, dos espelhos e mesinhas de mármore.

E desde então, a Colombo recebe centenas de turistas de manhã até de noitinha, servindo sua pastelaria e doceria, além de um concorrido almoço, com  bufê diariamente renovado.

Foto do blog da Daniela Almeida

Hoje sob o comando do irmão Roberto, a Colombo manteve o que está ótimo e além desse cotidiano pleno,  oferece ainda em seus belíssimos dois salões, festas fechadas de casamentos, coquetéis corporativos e almoços privés na sala-museu do segundo andar.

Ou seja, a Colombo, tombada pelo IPHAN desde1983,  continua “um assombro, sassaricando”, contrastando com este cenário atual de desolação e quebradeira de tantos bons restaurantes do Rio.

(*) Ruy Barbosa é o precursor (sem querer) do delivery no Rio. Foi assim: ele dormia cedíssimo e a sua mulher, Dona Maria Augusta, adorava receber e organizar jantares e reuniões no palacete da São Clemente. Aí o Ruy num dia que foi almoçar na Colombo, perguntou ao Lebrão se ele não podia levar a comida (salgados e doces e vinhos)  até a casa dele. Ao que o inteligente dono da Colombo deve ter respondido: mas com c’erteza, Conselheiro…

 

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