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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 16 de agosto de 2018. Gastronomia 2038

Neste mundo do politicamente correto (?), projetemos como será a vida daqui a 20 anos. Um casal chega a um restaurante para jantar. O maître se aproxima e a madame informa que está com pouca fome e quer, apenas, uma omelete. Já monsieur, não. Pede filé Chateaubriand com legumes sautés. Passo seguinte, pergunta a mulher: mas os ovos são orgânicos? De galinhas que ouvem música (clássica, é claro), antes da postura? Quero ver o filme da granja e o “cardápio” da ração delas!  O marido, na sequência, também se manifesta: e eu desejo ver o vídeo do abate do boi. Quero avaliar se ele sofreu muito quando sacou que ia para o “corredor da morte”. ou estava farto desta vida?

Bom, mas nem precisamos ir tão longe. Mesas com touch screen e garçons-robô já existem.

O Inamo, em Londres, por exemplo, é todo digitalizado. Você escolhe o prato e a bebida e, automaticamente, confere numa janelinha eletrônica o preço, as características da bebida, etc. E enquanto espera, entra no Time Out digital e estuda a programação de teatros, cinemas e outros “ativos” da cidade. Inclusive o mapa do metrô.

Em Xangai, na China, robôs servem num restaurante que está bombando.

Mas já que (já que!) estamos projetando para 20 anos as experiências gastronômicas, vamos imaginar como a alta tecnologia pode nos ajudar a ajustar certos confortos no serviço da restauração.

Ar condicionado, pivô de grandes brigas entre calorentos e friorentos. Solução: ar condicionado individual. Uma bolha invisível – sei lá – e transparente, envolveria cada cliente e a partir de um aplicativo no iPhone cada um regularia a temperatura exclusiva para si.  Por mim, pode nevar.

Sinalização de banheiros femininos/masculinos/LGBT. No hall que antecede o espaço-toilette, um holograma acenderia a figura de um homem, uma mulher e um casal gay – do banheiro que estiver vazio. De tempos em tempos, os gays seriam masculinos ou femininos. Acabaria a faca de peixe – já devia ter acabado – e o decanter, pois toda garrafa de vinho já viria com um aerador descartável pendurado no gargalo. Balde de gelo para espumantes então iria para o museu; um chip instalado na adega acompanharia a garrafa enquanto estivesse cheia.

Bom, quanto à localização dos restaurantes, haveria aqueles que mudam de lugar todos mês – espécie de rest-trucks – e até aqueles embaixo d´água, como já existem o Red Sea, na área de resorts de praias de Israel (5 metros abaixo, no Mar Vermelho).

E com mesa no teto também já existe. No Assinatura, em Lisboa (na verdade para significar que o chef vai virar a culinária tradicional de pernas pro ar), há uma mesa posta, com copos, tudo, pendurada.

Finalmente, vamos aos ingredientes. O mundo gastronômico caminha para a exacerbação das matérias-primas. Nesse “planeta futuro”, então, a discussão sobre a origem e qualidade de cada ingrediente será questionada ao vivo e em tempo real (vide primeiro parágrafo). Por exemplo: os pratos virão acompanhados de fotos, vídeos e gráficos indicando quantas chuvas aquele tomate “sofreu” até conseguir aquela cor; atestado do INPI garantindo a indicação de origem — segundo o craque Breno Neves, quando todos os componentes são da mesma região e reunidos pelo fabricante para finalizar o produto — e/ou a denominação de procedência, quando o carimbo apenas assegura que o produto partiu de um local específico.

Além dos direitos autorais. No caso de um galeto “al primo canto” o cocorocó é propriedade do galinho ou do dono da granja? E será que nessa época vamos exigir o CPF de uma cebola?

Só sei que sinto saudades do meu tempo de estudante em Paris, (1965-68) (e quantas! e como! ) e das refeições no Le Polidor (Rue Monsieur Le Prince, do outro lado da Rue Cujas, no Bvd Saint- Michel) onde o troco (“la monnaie) vinha dentro da cesta de pão – misturado aos pães. E quando chegava o cliente seguinte, o Jean Pierre reenchia a cesta com mais baguettes cortadas em cima de moedas de centavos de francos!

Ninguém morreu: ao contrário, muitas crianças nasceram…

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