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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 11 de outubro de 2018. As aparências enganam (*)

Um casal muito amigo fez, há anos, a sua primeira viagem à Paris. Como sempre, dei a minha listinha com dicas de restaurantes, bistrôs, igrejas, museus, passeios … e as furadas. Cautela, mes enfants, não se empolguem: não comam escargots se nunca provaram, nem miolos, nem ”ris de veau”  (timo ou pâncreas do vitelo — delícia, mas tem que ser do ramo), nem duas garrafas de vinho no almoço… já soube de muitos brasileiros que passaram metade da estada ”no trono”, ou com enxaqueca, porque Paris vale bem uma missa… Pois bem, na primeira noite esse casal foi jantar no clássico La Coupole,  porque estava hospedado em hotel na Rive Gauche (ça va sans dire!).

Obs: inaugurado com pompa e circunstância em 1927 para desbancar o Le Dôme (seu vizinho ilustre no Boulevard du Montparnasse (**), desde a abertura se impôs pela suntuosidade da decoração art-déco, pelas pilastras e cúpula muito bonita, além de comida e vinhos excelentes (para quem gosta de ostras, então…). Mas obviamente não é barato.

Adiante: sentaram-se perto da mesa de dois casais ”com cara de franceses ricos”. Pediram o menu, e tal, escolheram o mais conhecido e, na hora do vinho, começou a hesitação. Olhavam a lista, comparavam os preços, viravam as páginas… quando de repente ele teve uma ideia. Lembrou-se que eu tinha sugerido: na dúvida, peçam o vinho da casa, de preferência rouge, que em geral vem numa “carafe” tipo jarro de sucos,

Olharam para a mesa dos tais casais e… bingo!  É isso aí!

Chamaram o sommelier que havia se afastado e apontaram para o vinho-vizinho. O dito cujo lançou um olhar de relance e disse “bien sûr”. Sumiu e surgiu logo depois com uma garrafa aberta, rolha no pires, para a conferência do pedido.  Eles acharam “coisa de restaurante sofisticado!” mas foram em frente com o melhor ”oui” e biquinho.

Jantaram na maior felicidade (quase que ainda iam pedir um digestivo, freados pela prudência da mulher) e, afinal, “garçon! l’addition,  s’il vous plaît…”

Quando a conta chegou dentro de livreto … quase enfartaram! Uma soma muito além da esperada — cerca de 2 mil francos, na época, só do vinho! E mais 2 mil do resto (400 euros, hoje, eu acho). E aí também caiu a ficha: aquela carafe não era de vin de table. Era um decanter areando um grande Bordeaux!

E o pior: naquele tempo ninguém viajava com cartão de crédito, era “no granol” mesmo. Ele ainda teve que ir ao banheiro, tirar algumas cédulas daquela bolsinha amarrada na cintura/virilha.

Resultado subsequente:  passaram os dois dias seguintes jantando no hotel (almoço era sanduba na rua) escoltados por une bière… e água Perrier.  Bem, deles eu sei esta história, porque me contaram (querendo me repassar um traço de culpa!!!), mas imagino que muitos outros, muitos, cairam em arapucas semelhantes. Por isso, a sugestão deste blog é: chequem os preços, calculem o câmbio se estiverem no exterior, reclamem … ou seja, nunca se esqueçam que  VINHO NÃO FOI FEITO PARA HUMILHAR NINGUÉM.

(*) Título das charges do Carlos Estevão na Revista O Cruzeiro

(**) o nome Montparnasse é uma “amputação” de Monte Parnaso, montanha da Grécia que era considerada residência de Apolo e de suas nove musas… era assim que se “achavam” os intelectuais homens e mulheres que frequentavam o bairro no século XIX

 

 

 

 

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