Publicidade

Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 25 de outubro de 2018. Epitácio, o carioca e a praia

Fui ao Museu Histórico Nacional onde, a convite do meu amigo e embaixador Sérgio Moreira Lima assisti à palestra do também embaixador Carlos Alberto Pessoa Pardellas sobre o seu avô, Epitácio Pessoa  — e as anotações que ele fez em 4 cadernos, na sua segunda viagem ‘a Europa, em 1897 — reunidas em livro editado pela Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG).

Embora Epitácio tivesse vindo do fim do mundo (uma fazenda em Umbuzeiro, interior da Paraíba, em 1865), tornou-se um homem do mundo. Os estudos e as viagens ‘a Europa lhe permitiram uma extraordinária consciëncia de que um país isolado é apenas uma nação olhando para o seu umbigo e se esse país quiser ter protagonismo, voz e vez no jogo internacional, tem construir uma diplomacia profissional, atuante e recíproca: ver e ser vista, visitar e ser visitada. Nem por acaso o embaixador Moreira Lima o classificou como pioneiro do multilateralismo!

E não foi por outra razão que desde a sua posse, em 1919, Epitácio Pessoa  começou a elaborar o projeto de um grande evento, de repercussão mundial, para as comemorações dos 100 anos de nossa independência, 4 anos depois. Sabia que não faria feio, porque o Rio  vivia um surto de progresso — e o carioca de autoestima.

Mas já pensando na infraestrutura para o coroamento de sua gestão, a Exposição do Centenário, autorizou o desmonte do Morro do Castelo, cujo entulho foi suficiente para que se executassem os aterros da Glória, da Urca, do futuro aeroporto Santos Dumont e… da esplanada onde se ergueram as edificações para abrigar os pavilhões de Portugal, França, Inglaterra, Bélgica, EUA, Argentina e Japão.

Quatorze países enviaram embaixadas especiais, sendo que de Portugal e da Argentina vieram os próprios presidentes. Ora, para abrigar tão ilustres visitantes e 6.013 expositores, era imperioso construir um hotel ‘a altura das circunstancias e ninguém melhor do que o multimilionário e empreendedor Otávio Guinle para financiar a obra. Este aceitou com uma condição: construir dentro um Cassino.

Bingo! Autorização concedida. O projeto foi de autoria do arquiteto francês Joseph Gire que se inspirou nos estilos do Negresco, em Nice e Carlton, no Mônaco. Mas Otávio fez ainda uma exigência: que o futuro hotel fosse encravado nas areias da praia de Copacabana, cuja fama já corria mundo desde que a irreverente atriz francesa Sarah Bernhardt esteve no Rio, em 1886 e foi ‘a essa longínqua praia — de roupa de banho!

Obs: as más línguas afirmavam que a escolha se deveu ao preço do metro quadrado na areia — quase de graça…

O certo é que após uma violenta ressaca em junho de 1922, além da inexpertise em construir na areia fez com que o quase pronto símbolo da europa ‘a beira-mar afundasse nessa areia  e… que os VIPs que aqui chegaram em setembro fossem conduzidas para o Hotel Glória, que abriu as portas um mës antes das comemorações (15 de agosto de 22).

O majestoso Copacabana Palace só foi inaugurado no inverno de 1923 já na presidência de Arthur Bernardes. Vida que segue. Além de suas funções do maior e pioneiro equipamento turístico de luxo do Rio, o Copa cumpriu uma função importantíssima: apresentou o carioca ‘a areia e ‘a orla do mar.  Sim, senhores. O Rio vivia voltado para dentro, os bairros chiques da época eram Tijuca, Botafogo, Laranjeiras e Cosme Velho. Segundo o Maneco Miller, no prefácio do esplendido book sobre o hotel, diz: tudo escondido, fingindo não ser aqui. O próprio Palácio do Catete, símbolo máximo do poder, dava para a Rua do Catete e presidente nenhum conseguia ver a majestosa Baía de Guanabara porque uma parede de palmeiras impedia…

Ou seja, foi a determinação do Epitácio, a audácia do Otávio Guinle e a transgressão de Mme. Bernhardt  que apresentaram o carioca ‘a praia e ‘a orla que a circunda! Que logo a seguir tornou-se o cartão postal da Cidade.

Compartilhe:
Comentar

Comentar:

?>