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Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 15 de novembro de 2018. E agora D. Pedro: a festa acabou, a luz apagou…

Como todo movimento de aluvião,  o que derrubou D. Pedro II depois 48 anos no trono começou a germinar muito antes do XV de Novembro. Segundo alguns historiadores, um ano e meio ano antes, (13 de maio de 1888), quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea que, se por um lado resgatava a Nação dessa monstruosidade histórica, por outro a libertação dos escravos  jogou os ricos fazendeiros – na ponta os Barões do Café que se serviam dessa mão de obra gratuita — contra o Império.

Sem indenização.

Mas tem mais: se não bastasse, os políticos conservadores e própria imprensa começou a implicar com o regime, porque  D. Pedro II só tinha filhas mulheres e a sua sucessora dinástica, a Princesa Isabel, era casada com um francês, o Conde D´Eu, tido pela opinião pública como lobista dos interesses estrangeiros, especialmente os da gulosa França.

Por sua vez, os intelectuais, os liberais e a esquerda, em geral, considerava um atraso o Brasil continuar império enquanto quase todas as américas já eram repúblicas, a começar pelos nossos vizinhos platinos e andinos. Eça de Queiroz, como a sua ironia cirúrgica, escreveu que o próprio imperador “em viagens pelo interior” se confessava republicano…

E para culminar,  havia a crise interna provocada pela falta de recursos drenados para as guerras no Prata, a falta de um sistema de educação universal e, para remate, a inapetência do Imperador para o exercício continuado de suas altas funções,  fatigado das rotinas palacianas e com saúde claudicante: velho e diabético. As charges dos jornais o “mostravam” cochilando nas sessões do Parlamento. Ou seja, havia um sentimento coletivo de “chega!”

Mas faltava (como sempre) a gota d’água e o arrogante primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, se encarregou de derramá-la no “acintoso” Baile da Ilha Fiscal em homenagem à esquadra chilena que nos visitava. E por que a esbórnia que autorizou?  Por uma doida “lógica de marketing”: esnobar os republicanos do Chile (e os nossos!), jogando-lhes na cara a pompa da monarquia brasileira “contra” o estilo raso dos eleitos pelo provo…

E começou pelo local de per si lindíssimo, ainda mais “cenografado” para se transformar naquela noite numa Versailles Tropical!

Nos jardins, 10.000 lanternas venezianas clareando todo o ambiente e no entorno, o magnífico espelho d’água da Baía da Guanabara. No interior, o palácio iluminado com setecentas lâmpadas elétricas para impressionar os cerca de 4.500 convidados. E para bem servi-los, 90 cozinheiros e 150 garçons que prepararam 500 perus, 64 faisões, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 1.300 frangos, 12.000 sorvetes e 1.800 frutas brasileiros. Queijos de Minas. 

 

Os vinhos, por sua vez,  estavam à altura de um banquete de Talleyrand para as cabeças coroadas da Europa: Madeira, Sherry, Château d’Yquem, Chablis, Margaux, Lafitte, Château Léoville e Porto, safra 1834. E os champagnes Cristal, Veuve Clicquot, Heidsièck, Chambertin e Pommard.  Segundo os escritores José Murilo de Carvalho, Guilherme Figueiredo e Carlos Cabral, a preço de hoje foram gastos algo como 250.000 dólares em bebidas! 

Pedro II compareceu com toda a família mas retirou-se cedo, logo depois da Valsa do Imperador — cansado e sonolento.

Oito dias depois, a 17 de novembro – um domingo – uma lancha do Arsenal da Marinha levou a Família Imperial para o vapor Parayba, ainda de madrugada. Ao meio-dia, o Parahyba zarpou para a Ilha Grande, onde estava o Alagoas. O transbordo foi feito à noite. E na manhã do dia 18 de novembro D. Pedro II fez-se ao mar-oceano e se afastou da costa brasileira a caminho da Europa.

Para nunca mais voltar.

PS: nota de honradez. Consta que na tarde desse 17 de novembro de 1989, alguns ex-colaboradores de D.Pedro II teriam ido ao seu encontro na sua cabine do vapor Parahyba com o intuito de oferecer-lhe dinheiro para — pelo menos — fazer frente às despesas nos primeiros tempos de exílio. E D. Pedro II teria recusado, dizendo: eu não estarei trabalhando pelo Brasil, não mereço dinheiro dos brasileiros…

 

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Rio, 8 de novembro de 2018. Um chef para o Capitão

Jair Bolsonaro é o presidente eleito do Brasil. E não sendo um político tradicional (donde, em parte, a sua vitória), está reiventando a liturgia da presidência… ele mesmo é o seu porta-voz, fala pela vídeo nas redes sociais, prega a bandeira brasileira na parede com durex, etc.  Tudo bem, o Getúlio nunca falou ao telefone e governou 20 anos… Mas do ponto de vista gastronômico, “a coisa tá complicada” — Bolsonaro come pão com doce de leite em cima, sanduíches… Por enquanto, não importa. Importa é “sugerir” que quando ele se mudar para o Alvorada,  siga a trilha dos que descobriram bem antes dele a importância de um “espetáculo gastronômico de estado” para estabelecer as grandes conexões nacionais e internacionais. Aliás, registre-se que o Fernando Henrique foi o primeiro dos nossos presidentes a sacar, tanto que convocou a gaúcha Roberta Sudbrack para comandar “as panelas” do palácio, em Brasília e o  Fidel Castro ficou abduzido, e o Rei Juan Carlos, de Espanha, queria levá-la para Madri…

Bom, mas para não recuar de mais no tempo — Napoleão, em 1805, delegou “esse job” ao seu poderoso Ministro das Relações Exteriores, Talleyrand, que comprou o Château de Valençay  para lá instalar o melhor chef da época,  Carême, e transformar cada banquete num acontecimento da corte — tradição que levou esse mesmo Tayllerand em 1814 a levar o queijo “brie” ao Congresso de Viena e batizar o laticínio de “le roi des fromages, le fromages des rois” — e não esticar o travessão, fiquemos com quatro exemplos.

O primeiro é o francês. Em 25 de fevereiro de 1975, no luxo elegante do Palais de l’Élysée, o então presidente Giscard d’ Estaing espetou no peito do Paul Bocuse a Legião de Honra. Era a primeira vez que um cozinheiro recebia a mais alta insígnia da heráldica francesa.

Giscard condecora Bocuse

Os outros três são exemplos são norte-americanos.

George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos (1789-97), adorava vinhos Madeira e tanto ele quanto a mulher, Martha, dificilmente jantavam a sós. Sempre tinham convidados, alguns estrangeiros inclusive. E  valorizavam de tal fora a matéria-prima americana, que incentivaram o cultivo de esturjões do Potomac, “elemento ativo” da famosa sopa de amêijoas ou peixe — choulder — bem como assados com a carne de boi confinado, já que ele era também grande fazendeiro. Chowder

Segundo: já o terceiro presidente, Thomas Jefferson (1801-1809),  horticultor, líder político, arquitetoarqueólogopaleontólogomúsicoinventor e fundador da Universidade da Virgínia, aprendeu nos tempos de embaixador de  seu país em Paris a gostar de bons vinhos e finas iguarias. E quando se tornou presidente, mandou buscar da França dois chefs – Julien e Lemaire – que faziam o encanto dos convivas na Casa Branca ( foi ele que a inaugurou). Ele adorava o especialíssimo vinho de sobremesa francês Château d’Yquem e tentou cultivar uvas vitivinícolas na Califórnia, mas nunca teve o sucesso desejado.

Thomas Jefferson

Terceiro: mas o casal presidencial campeão de charme (em geral) e protagonismo social foram os Kennedy (1961-1963), Jack e Jacqueline. Ela contratou o chef  francês René Verdon e nunca antes, nem depois, a sala de banquetes da Casa Branca brilhou tanto. Porque não só as iguarias, mas o mix de convidados — o chefe do cerimonial tinha instruções de mesclar bilionários, artistas, nobres europeus, políticos influentes e… chefes de estado — faziam de cada jantar de gala na Casa Branca um show hollywoodiano.

casal Kennedy

Ou seja, embora Poder e Gastronomia não sejam, necessariamente, relação de causa e efeito – houve poderosos que ficaram longos anos no alto comando de seus países e nunca se soube que tivessem algum pendor enogastronômico (imperadores romanos, reis, rainhas (Vitória, Elizabeth da Inglaterra), ditadores (Perón, Getúlio, Salazar, Franco)  — atualmente a gastronomia de um país é o seu outro retrato. E uma fonte de renda nada despezível, sobretudo através do Turismo (o exemplo emblemático é Lima, no Peru), porque o que se serve e o que se bebe “nacionalmente”  transcende a experiência do prazer do palato para se associar a outros paradigmas: conquista amorosa, facilities empresariais-financeiras, relações públicas, diplomacia de resultados, prestígio e influência. Ou seja, tudo de que o poder também gosta!

Bon Appétit!

 

 

 

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