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Rio, 8 de novembro de 2018. Um chef para o Capitão

Jair Bolsonaro é o presidente eleito do Brasil. E não sendo um político tradicional (donde, em parte, a sua vitória), está reiventando a liturgia da presidência… ele mesmo é o seu porta-voz, fala pela vídeo nas redes sociais, prega a bandeira brasileira na parede com durex, etc.  Tudo bem, o Getúlio nunca falou ao telefone e governou 20 anos… Mas do ponto de vista gastronômico, “a coisa tá complicada” — Bolsonaro come pão com doce de leite em cima, sanduíches… Por enquanto, não importa. Importa é “sugerir” que quando ele se mudar para o Alvorada,  siga a trilha dos que descobriram bem antes dele a importância de um “espetáculo gastronômico de estado” para estabelecer as grandes conexões nacionais e internacionais. Aliás, registre-se que o Fernando Henrique foi o primeiro dos nossos presidentes a sacar, tanto que convocou a gaúcha Roberta Sudbrack para comandar “as panelas” do palácio, em Brasília e o  Fidel Castro ficou abduzido, e o Rei Juan Carlos, de Espanha, queria levá-la para Madri…

Bom, mas para não recuar de mais no tempo — Napoleão, em 1805, delegou “esse job” ao seu poderoso Ministro das Relações Exteriores, Talleyrand, que comprou o Château de Valençay  para lá instalar o melhor chef da época,  Carême, e transformar cada banquete num acontecimento da corte — tradição que levou esse mesmo Tayllerand em 1814 a levar o queijo “brie” ao Congresso de Viena e batizar o laticínio de “le roi des fromages, le fromages des rois” — e não esticar o travessão, fiquemos com quatro exemplos.

O primeiro é o francês. Em 25 de fevereiro de 1975, no luxo elegante do Palais de l’Élysée, o então presidente Giscard d’ Estaing espetou no peito do Paul Bocuse a Legião de Honra. Era a primeira vez que um cozinheiro recebia a mais alta insígnia da heráldica francesa.

Giscard condecora Bocuse

Os outros três são exemplos são norte-americanos.

George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos (1789-97), adorava vinhos Madeira e tanto ele quanto a mulher, Martha, dificilmente jantavam a sós. Sempre tinham convidados, alguns estrangeiros inclusive. E  valorizavam de tal fora a matéria-prima americana, que incentivaram o cultivo de esturjões do Potomac, “elemento ativo” da famosa sopa de amêijoas ou peixe — choulder — bem como assados com a carne de boi confinado, já que ele era também grande fazendeiro. Chowder

Segundo: já o terceiro presidente, Thomas Jefferson (1801-1809),  horticultor, líder político, arquitetoarqueólogopaleontólogomúsicoinventor e fundador da Universidade da Virgínia, aprendeu nos tempos de embaixador de  seu país em Paris a gostar de bons vinhos e finas iguarias. E quando se tornou presidente, mandou buscar da França dois chefs – Julien e Lemaire – que faziam o encanto dos convivas na Casa Branca ( foi ele que a inaugurou). Ele adorava o especialíssimo vinho de sobremesa francês Château d’Yquem e tentou cultivar uvas vitivinícolas na Califórnia, mas nunca teve o sucesso desejado.

Thomas Jefferson

Terceiro: mas o casal presidencial campeão de charme (em geral) e protagonismo social foram os Kennedy (1961-1963), Jack e Jacqueline. Ela contratou o chef  francês René Verdon e nunca antes, nem depois, a sala de banquetes da Casa Branca brilhou tanto. Porque não só as iguarias, mas o mix de convidados — o chefe do cerimonial tinha instruções de mesclar bilionários, artistas, nobres europeus, políticos influentes e… chefes de estado — faziam de cada jantar de gala na Casa Branca um show hollywoodiano.

casal Kennedy

Ou seja, embora Poder e Gastronomia não sejam, necessariamente, relação de causa e efeito – houve poderosos que ficaram longos anos no alto comando de seus países e nunca se soube que tivessem algum pendor enogastronômico (imperadores romanos, reis, rainhas (Vitória, Elizabeth da Inglaterra), ditadores (Perón, Getúlio, Salazar, Franco)  — atualmente a gastronomia de um país é o seu outro retrato. E uma fonte de renda nada despezível, sobretudo através do Turismo (o exemplo emblemático é Lima, no Peru), porque o que se serve e o que se bebe “nacionalmente”  transcende a experiência do prazer do palato para se associar a outros paradigmas: conquista amorosa, facilities empresariais-financeiras, relações públicas, diplomacia de resultados, prestígio e influência. Ou seja, tudo de que o poder também gosta!

Bon Appétit!

 

 

 

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