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Rio, 13 de dezembro de 2018. Ah, como é bom escrever bem

Releio o livro do Dário Castro Alves, “era Lisboa e chovia”, com o duplo prazer de recordar certas passagens – e redescobrir outras. É um roteiro geográfico dos locais de Lisboa e arredores aonde se passaram episódios, cenas e relatos dos personagens de Eça de Queiroz.  Muito bem escrito, documentado, diagramado.

             

Eça nasceu na Póvoa do Varzim, em 1845 e a certidão de nascimento informava o nome do pai, mas…”mãe ignota”. E essa ilegitimidade foi, a meu ver, a razão pela qual todas as personagens femininas de sua obra eram transgressoras. Cresceu lá no norte, estudou em Coimbra (com vagares, foi reprovado várias vezes) e só conheceu Lisboa quando já tinha 21 anos. E lá só viveu seis anos – de 1866 a 1872 — quando foi nomeado cônsul em Havana (*), depois Newcastle, Bristol e, por fim, Paris. Mas gostava tanto da cidade, que tornou-se por excelência o “escritor de Lisboa”. Voltou muitas vezes em férias, trânsito ou licença, mas nunca mais passou mais do que seis meses nessa margem do Tejo. Tinha, contudo, o seu grupo, com o qual jantava, conversava e bebia, “quando lá estava” e com quem se correspondia quando no exterior. Formava a chamada Geração 70, ou Os Vencidos da Vida, designação atribuída a esses intelectuais que nas últimas décadas do século XIX se afirmaram pelo movimento de intervenção e renovação da vida política, social e cultural portuguesa. Todos escreviam bem, cada um em seu estilo e gênero (não sexual, mas literário! prosa, poesia, artigos de jornal). Entre eles, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Guerra Junqueiro o próprio Eça e, às vezes, agregados, como o Marquês de Soveral.

O veterano Camilo Castelo Branco não fazia parte. Ficou ao largo: era de outra geração e pensamento. E chegou a a atacar o Eça pelas Conferências do Cassino (em que Eça e outros escritores defendiam o Realismo e ele, Camilo, romântico de carteirinha, caiu de pau).  A resposta do Eça é magistral: “mestre, o seu génio é como o sol de inverno: dá muita luz, mas aquece pouco”!)

Eça e Lisboa.

Visto-me como inglês (era, assumidamente, um dandy), penso como francês; o que me salva é o gostinho depravado pelo bacalhau do Bairro Alto” disse, certa vez, o autor da Relíquia.

Mas voltemos a este livro do embaixador Dário Castro Alves e às premissas do início: Lisboa é o cenário-base onde se move o enredo de sua obra formidável (com alguma salidas para o Oriente, na Relíquia ou para outras cidades de Portugal, em alguns dos romances), como enunciado no “à meneira de prefácio”: “este livro é um novelo do qual tentei puxar alguns fios da vida e da cultura portuguesas (lisboetas), deixados à mostra por Eça de Queiroz na sua esplêndida capacidade de fabricar histórias e contá-las num grande painel de graça e encantamento, embora não poucas vezes com impiedosa ironia ou cáustica mordacidade…”  E sugere que outros pesquisadores prossigam, aprofundados temas especiais na ficção do Eça: “gastronomia, enologia (ah! o Colares de Sintra!), tabagismo, jogos e meios de transporte”. (E sexo, acrescento eu).  Além disso, e como aponta Álvaro Lins, mais um dos seus biógrafos brasileiros, todos os seus personagens têm endereço indicando a cidade, a rua, o nº na porta e outros detalhes topográficos. E como Lisboa foi a principal referência, fecho com a grand finale de Os Maias, o seu romance-master, ambientado nas ruas da capital portuguesa, em que estão presentes não só um endereço (Hotel Bragança) e um meio de transporte (o “americano”), mas o contraditório entre o discurso e a realidade, outra chave de seu estilo e que prepara o formidável humor satírico de suas grandes tiradas.                                                                                                                                        

Carlos da Maia confessa a João da Ega “que agora abraçava o fatalismo muçulmano: nada desejar e nada recear. Não se abandonar a uma esperança, nem a um desapontamento. Tudo aceitar: o que vem e o que foge. Deixar o eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no Infinito Universo… Sobretudo não ter apetites, nem contrariedades.”

Ega concordava  e dizia que não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra…

Mas Carlos da Maia lembrou-se de jantar “um prato de paio com ervilhas, que lhe despertava o apetite” (primeira dicotomia entre discurso  e realidade). Só que já eram “seis e um quarto” e ele tinha dito ao Vilaça e aos rapazes para estarem pontualmente às seis no Hotel Bragança. E não aparecia uma tipoia para os levar… (segunda dicotomia: “não ter apetites, nem contrariedades!)

— “Espera! – exclamou o Ega, lá vem um “americano” (**), ainda o apanhamos.” Os dois amigos lançaram o passo, largamente… mas a lanterna vermelha do “americano”, ao longe, no escuro, parara… De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar “o americano”, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.”

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(*) por falar em diplomatas portugueses (sobretudo daquela época) vale a deliciosa leitura desse trecho do hoje embaixador português Francisco Seixas da Costa, que bem traduz  uma outra dicotomia: a sofisticação de certas circunstâncias diplomáticas … e o bolso do próprio!  “ontem, na rua, caiu inanimado de fome um indivíduo bem trajado. Conduzido para uma botica próxima, o infeliz revelou toda a verdade. Era embaixador de Portugal. Deram-lhe, logo, bifes. E o desgraçado sorria, com lágrimas nos  olhos…”

(**) carros “americanos” eram bondes puxados por duas mulas

Eça morreu em Paris, em 1900, aos 54 anos, provavelmente de um câncer no estômago, o órgão de choque de um gourmet-total como ele.

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