Publicidade

Jornal do Brasil

Blog do Reinaldo - JBlog - Jornal do Brasil

Rio, 23 de maio de 2019. O queijo é feio, o vinho é bonito

Sendo o vinho um “ser vivo”, no sentido que nasce — quando a fermentação alcoólica do mosto (suco da uva vitivinícola (*) se completa — vive, durante seu estágio no interior da garrafa; envelhece e morre, quando se avinagra, precisa de certos cuidados para uma saúde perfeita.

Para a produção do vinho os fatores de qualidade são: o solo, o clima, os cuidados com a parreira, o uso ou não de pesticidas (orgânicos e biodinâmicos são isentos), a colheita (no amadurecimento certo), o armazenamento , a vinificação (o processo), o engarrafamento e, por fim, a distribuição.

Mas “em casa”, pra vocês apreciadores, os cuidados começam com a compra. Escolham um estabelecimento confiável (deli, supermercado, distribuidor, “corretores” de vinhos, importadora) e com um mínimo de know-how em guardar e expor vinhos. Quantas vezes, por exemplo, passo por uma vitrine de vinhos banhada de sol! (Tenho vontade de passar protetor solar nas garrafas!). Ora, sabemos todos que o vinho “odeia” luz, calor e trepidação, entre outros inimigos…

O passo seguinte é o armazenamento: já “defendi” em outros blogs as vantagens de uma adega refrigerada, por pequena que seja. Mas se não puder comprá-la, por favor não guarde os seus vinhos em armários  fechados, em cima de fogões ou geladeiras e, sobretudo, NUNCA em despensas que têm como vizinhos detergentes, água sanitárias e odores que invadem a rolha e…) Bom e no caso da não-adega refrigerada, por favor tente colocá-los deitados (o contato do vinho com a rolha dilata a cortiça e evita que entre ar, poeira, etc) e em algum lugar que não sofra longas oscilações de temperatura (em quartos onde se liga o ar-condicionado à noite e se desliga no dia seguinte).

Exemplo de adega doméstica para quem não guarda vinhos por muito tempo.

Observados esses cuidados básicos, vamos avançar para um plano mais elaborado (se vocês quiserem merecer o título de apreciadores de vinho!).  Um: a temperatura correta de guarda: entre 8* e 20*, embora um tinto “sobreviva” a máximas altas: 26* a 28*. (Os brancos e rosés, não; então pode ser a parte de baixo da geladeira — o ar frio desce). Dois: as taças: para os tintos, quanto mais “ovalada” ela for melhor, porque assim ela “aprisiona”os aromas que em contato com o ar se desprendem do interior  para a borda, facilitando a aspiração na hora de prová-los, um dos movimentos de degustação adequada. Três: harmonização (combinação com comidas):  com canapés,  saladas (sem vinagre), massas leves, peixes e frutos do mar, comida crua – japonesa e tartares – o vinho branco é o mais indicado porque a sua acidez e a ausência de taninos não brigam com a leveza desses alimentos. Já para os demais pratos – carnes, presuntos, defumados, queijos fortes, aves, caças, etc, o tinto é mais indicado porque os taninos presentes nas cascas das uvas (e nos casos dos tintos presentes durante a vinificação) empresta “músculos”que facilitam a digestão.

Observação: obviamente o gosto pessoal de cada um deve alterar ou não essa ordem. Eu, por exemplo, como feijoada com vinho tinto, por duas razões: 1) acho que fica melhor o preto da feijoada contracenar com o branco do vinho; 2) a acidez de um Riesling ou Sauvigno Blanc funcionam melhor no processo digestivo.

Finalmente, se você for oferecer um queijos e vinhos na sua casa, observe alguns “procedimentos”.

a) prepare uma mesa de queijos com frutas e/ou flores pelo meio, porque um “plateau de fromages” é feio: parece um solo lunar!

                                       

b) coloque bem à vista dos seus convidados um jarro com um suco vistoso, tipo abacaxi com hortelã, para “o pessoal” não matar a sede com vinho branco gelado! c) compre a mesma marca de brancos e a mesma de tintos, para não acabar um tipo que todo mundo gostou e você ter que oferecer outro tipo, de repente nem tão apreciado.

E boa sorte!

Observação: os champagnes/espumantes e os rosés ficam para a próxima!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*) Uvas vitivinícolas são aquelas que apresentam características de castas historicamente produtoras de vinhos.  Cerca de 5 mil. Só Portugal, por exemplo, dispõe de 250 tiois de castas diferentes. Exemplo: nas tintas, a Cabernet-Sauvignon, Merlot, Touruga Nacional, Tempranillo, etc e, nas brancas, Chardonnay, Riesling, Antão Vaz, Moscatel,  etc. As não vitivinícolas são chamadas de americanas ou híbridas e servem como fruta, compotas, etc.

Compartilhe:
Comentar

Rio, 17 de maio de 2019. A eterna cerveja!

Quando vejo a propaganda das cervejas artesanais — com coentro, limão siciliano, etc — na sua composição, me lembro do poema do Drummond: cansei de ser moderno. Agora vou ser eterno.

Porque a cerveja vem de longe, como o vinho. Parênteses: você gosta de ar condicionado? Então agradeça à cerveja.
E isso porque, para ser produzida, a cerveja precisa ser refrigerada, especialmente na fase de maturação, quando sua temperatura deve ficar em torno de 0ºC. Como no verão europeu isso era praticamente impossível, o engenheiro alemão Carl von Linde desenvolveu em 1894, a pedido da cervejaria Guinness, (irlandesa que é o orgulho de Dublin) um revolucionário método de arrefecimento (técnica de Linde) para a liquefação de grandes quantidades de ar. Ou seja, o inventor ar-refrigerado.
Inventor ar-refrigerado
A técnica de Linde ficou conhecida como contra-corrência: o ar é sugado para uma máquina que o irá comprimir, pré-arrefecer e, por fim, descomprimir. Yes!

Mas além de “mãe” do ar-condicionado, cerveja também é cultura. Shakespeare faz 14 menções à palavra “ale” e cita cinco vezes a palavra “beer” ao longo de sua obra (cerca de 40 peças).
20141008-bebedor de cerveja
O que nos leva a duas conclusões: uma é que no tempo de Shakespeare – ele viveu de 1564 a 1616 – a cerveja já era uma bebida muito popular; e, a outra, é que além de gênio, o bardo de Avon gostava de uma “amarga” quase que hereditariamente. O pai dele era o mais próspero comerciante de “ales” do Reino Unido!

E nem por acaso há, atualmente,  um movimento britânico chamado “real ale” (um inteligente trocadilho com a palavra real) que visa resgatar a cultura dos heritage pubs (pubs de herança), como são definidos esses santuários da rua inglesa, segundo a definicão da Britain`s Best Heritage Pubs.

Um gole de história: a cerveja é provavelmente provenientes da Mesopotâmia (talvez mais precisamente a Suméria, atual Iraque),  mas foi no antigo Egito que ela iniciou a sua carreira.

Inscrições em hieróglifos e obras artísticas testemunham o gosto daquele povo pelo henket ou zythum, apreciados por todas as camadas sociais. Curiosamente e no movimento pendular da história, eram totalmente artesanais.

Os gauleses a chamavam de cerevisia em homenagem a Ceres, deusa da agricultura e da fertilidade.

Sim, mas o que é a cerveja, afinal?

É o resultado da fermentação alcoólica do mosto de algum cereal maltado, sendo o melhor e mais popular a cevada. Mas outros cereais maltados ou não maltados são igualmente usados, incluindo o trigo, arroz, milho, aveia e centeio. Além disso, como a água é o seu principal elemento, a origem dessa água e as suas características têm um efeito determinante na qualidade da cerveja, influenciando, por exemplo, o seu sabor.  Outro ingrediente muito importante é o lúpulo. O lúpulo, como podem observar, é uma trepadeira de origem europeia e muito embora tenha parentesco com a maconha,  não possui propriedades entorpecentes.

Usa-se a flor do lúpulo, para acrescentar um gosto amargo que equilibra a doçura do malte e possui um efeito antibiótico moderado, pois possui propriedades bactericidas e antioxidantes. E a adição do lúpulo à fórmula da cerveja — produzida até cerca dos anos 700 da nossa Era apenas com a mistura da água, malte e aromatizantes, como a camomila, o gengibre, o zimbro e o açafrão — serviu não apenas para “puxar” o sabor para o amargo, como dissemos mas, e sobretudo, para evitar que ela se deteriorasse rapidamente.

Além do lúpulo, dezenas de estirpes de fermentos naturais, ou cultivados, são usados pelos cervejeiros, o que resulta em duas famílias principais de cervejas: as lagers, de baixa fermentação, com aroma suave e as ales, de alta fermentação e sabor frutado, apresentando uma coloração que varia do dourado ao marrom escuro.

Todas devem ser tomadas a uma temperatura de 2 a 6 graus,  porque estupidamente gelado só chope e chope é bebida de verão – que felizmente ainda está longe!

Para finalizar e “tudo junto e misturado” (guiness, ingleses, cervejas, vontade de fazer pipi e cachorros), que tal essa charge — pérola do humor inglês.

inglês adora fila

Cheers!

Compartilhe:
Comentar

Rio, 12 de maio de 2019. Dia das Mães

Bom, é só entrar numa academia de ginástica ou num bar descolado do Rio ou São Paulo, por exemplo, para constatar que as mães mudaram muito… Sobretudo na sua relação com o vinho.

D’antanho (pra ficar no clima), os filhos ofereciam um almoço nesse dia fora de casa, regado a vinho rosé (!) ou, os mais abastados, ofereciam uma bela garrafa de vinho do Porto.

Hoje a mulher entrou pra valer no mundo do vinho — e não só como exigente consumidora, mas como distribuidora, Relações Públicas de vinícolas, produtoras, importadoras e exportadoras — e a MÃE não vai se contentar com essas gracinhas…

Então, que tal (por exempolos)

Decanter

decanter musical
Os apreciadores de vinhos não podem deixar de fazê-los respirar num desses decanters “de filme”, porque além do charme, a decantação faz o líquido ser oxigenado por igual. Antigamente, havia uma segunda função muito importante: “identificar” alguma sujidade – rolha, borra – a ser filtrada antes de ser servido o precioso néctar. Hoje a maioria dos vinhos são filtrados antes do engarrafamento.

Termômetro/“rapid-ice”
Há vários tipos: o anel em torno da garrafa, o clássico que parece para “febre” e um high-tech que é manipulado como um radiologista aciona o ultrassom.

20120108-rapid ice

E, na outra ponta, o rapid-ice para manter a garrafa na temperatura conveniente.

Adegas domésticas
Enófila que é enófila não guarda vinho numa prateleira de madeira na despensa, nem num “xadrezinho” de arame num canto da sala, embaixo da televisão.  E muito menos em armários fechados, junto com pratos… (horror!)

Que gosta de vinho e tem um mínimo de brio, adquire uma adega climatizada. Pode ser para apenas 6 garrafas ou, num crescendo, para 16, ou 25, 40, 48, 72 e 90. Mais do que isso, ou é o Maluf, ou o Boni, ou é restaurante, enoteca, etc.
adega para 48

 

Audiovisuais (para os menos abastados … mas criativos)
Vale tudo: papéis de de parede, guardanapos, CDs com músicas para se ouvir enquanto se bebe, tudo com motivos eno-simbólicos, como ninfas, Bacos, fontes em meio às vinhas, suaves ruídos de “glug-glug”, tilintar de taças, etc.

            

 

Ou até uma rápida aula.

Finalmente e (sugestão deste blog) : sente(m)-se ao lado da Mãe, uma taça na mão (mas Atenção: você, filha ou filho, têm que ser no máximo, o centro das desatenções). A estrela da festa é a Genitora.

E é muito, muito bom ter mãe viva — fisicamente ou na lembrança!

Compartilhe:
Comentar

Rio, 2 de maio de 2019. 500 anos sem Da Vinci

Leonardo Da Vinci morreu, hoje, (2 de maio — de 1519) aos 67 anos,  na pequena cidade de Cloux, perto de Ambroise, (Tourraine), no braços do Rei de França, François Premier.  Foi um desses gênios dentro dos quais o Sol nunca se põe, como disse Neruda no enterro do Picasso.

Tinha uma curiosidade insana. Dissecava cadáveres para entender os labirintos do corpo humano e foi estudando profundamente os músculos dos lábios que resolveu pintar o enigmático sorriso de (uma das) sua obra-prima: a Mona Lisa. O crítico de arte Rodrigo Naves diz que “o sorriso da Mona Lisa é o sorriso da própria natureza“.

Mas nem todos sabem que Leonardo foi um apaixonado por alimentos e pela liturgia das refeições. Para começar,  foi talvez o primeiro vegetariano — por opção — de que a história traz registro. E um”cinematográfico” cenógrafo de festas! Para agradar ao seu benefactor, o poderoso Duque de Milão, Ludovico Sforza, (para quem trabalhou 13 anos) — e considerado o melhor anfitrião da Lombardia —  coordenava espetáculos pantagruélicos, em que não apenas a quantidade, mas a arte de preparar e apresentar os alimentos, bem como de construir atrações que permeavam os pratos, faziam a diferença.

Duque de Sforza

E já naquela época –- há cinco séculos, repito — Leonardo defendia a simplicidade dos alimentos e a beleza de uma mesa bem posta. Registrou no seu diário: “É meu dever tornar cada banquete um feito inesquecível. Juntava libélulas, plantas aromáticas, fontes de água, grilos, água de rosas para enxugar as mãos, pequenas estátuas de marzipã, geleias coloridas e, lá fora, cisnes, sinos, corneteiros e avestruzes dando voltas e mais voltas, para dar movimento à paisagem”.

E anotava tudo o que pensava sobre gastronomia em manuscritos que levavam o nome de “codex”. O que trata dos assuntos da mesa é o Codex Romanoff, cuja cópia foi achada em 1981.

Mas escreveu também sobre botânica, engenharia militar, cartografia, ótica… e deixou mais de 7 mil papéis com desenhos, projetos, perguntas (“o que é a alma”?), hoje preservadas em bibliotecas europeias e na formidável coleção privada do Bill Gates, que em 1990 pagou 30 milhões de dólares pelo Codex Leiceste — 72 páginas nas quais Da Vinci descreve o luar, os fósseis e os movimentos aquáticos (parágrafo de transcrito do Segundo Caderno do Globo de hoje).

Leonardo nasceu numa fazenda perto da cidadezinha de Vinci, na toscana. Foi criado pelos avós paternos, numa pequena propriedade que cultivava trigo e azeitonas. A alimentação se completava com legumes e vegetais. Por isso, comia-se fava e feijões, grão-de-bico e ervilha, com pão, alho, cebola, nabos e…azeitonas. Além de queijo de ovelha. E, tratando-se da Itália, obviamente bebia-se vinho, desde os 5 anos – com água.

Cresceu gênio. Se tivesse nascido no século XX – XXI – teria inventado o iPhone, a Internet, o carro elétrico, os drones, a robótica, a nanociência, o transplante de fígado…

Era divertido, perfeccionista (imaginem!), bonito, namorador e gay, segundo o jornalista americano  Walter Isaacson, ex-editor do Times e autor da biografia “Leonardo da Vinci”, lançada em 2017 e que antes de chegar às livrarias de todo o mundo foi a primeiro colocada na pré-venda da Amazon por 3 meses!

Por isso e para ficar no clima gênio-divertido, que tal terminar com essa charge-poster com a Mona Lisa enófila?

A Monalisa e o bordeaux

Desconheço o autor  da charge, mas a quem rendo as mais enológicas homenagem!

Compartilhe:
Comentar
?>