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Rio, 19 de julho de 2018. E de repente o vinho grego

Um casal muito querido nos ofereceu esta semana o branco Assyrthico, o vinho-emblema de Santorini, na Grécia. Aí voltou o assunto: vinho grego, Grécia, Santorini (*) que, vamos combinar, é absolutamente deslumbrante.

                        

Obs: as três fotos foram tiradas por mim

Vamos em frente (ou para trás!). Embora a vinha seja mais velha do que a História, o vinho (só!) começou a ser produzido (segundo registros confiáveis) há cerca de 6 mil anos. Segundo alguns pesquisadores, começou na Ásia Menor — entre a Pérsia e a Armênia, no Cáucaso.

Mapa do vinho na antiguidade

Segundo outros, na Grécia. Tanto que o primeiro pai do vinho foi Dionísio, filho de Zeus, e deus da vegetação e do vinho. O certo é que a Grécia foi o primeiro lar do vinho, provavelmente em torno de 3 mil anos a.C.  Foram encontradas grainhas (sementes) de uvas em túmulos antigos que comprovam o período.  Na Grécia Antiga, o vinho era utilizado não só como bebida, mas também como medicamento. Era servido em copos de várias formas e tamanhos, cada um com um nome diferente. Ânforas eram utilizados para servir o vinho no Symposium (**). Eram vasos largos, de excelente qualidade, usados para armazenar o vinho. 
Obs: esse parágrafo em itálico é de autoria do site internacional Hello Net(work), produzido em Portugal.

Da Grécia o vinho partiu para a Itália e “mudou de deus”. De Dionisio para Baco, aqui magistralmente pintado por  Caravaggio.

Baco, por Caravaggio

Da Itália, se expandiu para a Península Ibérica. Depois,  entrou no mar-oceano e foi para os quatro cantos do mundo. No início (até o início do século XIX), a maioria dos vinhos era doce, porque diluídos em água ou mel para prorrogar seu tempo de vida. E, às vezes, ainda se adicionava resina de pinheiro (sobretudo em Santorini, na Grécia). Tudo para não avinagrar logo, porque vinho exposto ao oxigênio é o vinagre de amanhã. A palavra “vinaigre”, em francês, é a fusão de “vin aigre”. Vinho azedo, amargo.

De volta para o futuro: na Grécia contemporânea, são cultivadas cerca de 250 variedades de uvas em quase todo o continente e em todas as ilhas. No norte da Grécia, as áreas de produção de vinho mais importantes são Naousa, Goumenisa, Amynteo, Siatista e Halkidiki. Já na Macedonia (noroeste), são produzidas as castas Xynomavro, Moshomavro, Athiri, Agioritico e Assyrtiko, mencionado acima, e cujas vinhas são fincadas em um solo vulcânico, poroso, formado por lava, xisto e pedra-pome.

Foto acima e texto a seguir da Revista Adega e do Marcelo Copello – 2016

“Em termos de regiões produtoras, a Grécia é dividida em cinco macrorregiões: Norte (com destaque para a Macedônia), Grécia Central e Áttica, Peloponeso e Ilhas Jônicas, Creta e, finalmente, as Ilhas do Egeu. No Norte, a casta dominante é a Xinomavro (tinto), seguida pela Naoussa e Amynteo. Nas demais regiões, encontramos as castas Mantinia (branco), Nemea (tinto), Agiorgitiko (tinto), Moschofilero (rosé/branco),  Mavrodaphne (tinto), Roditis (rosé/branco), Trhrapsathiri (branco), Liatiko (tinto) — e a minha querida Assyrthiko — a principal uva branca da Grécia, embora originária de Santorini, a joia do Mar Egeu. É um vinho branco, seco, com toques minerais e muita alegria! Mas existe uma versão doce, o vinsanto,  produzido com uvas passificadas (com trocadilho).

Detalhe curioso: a surpresa é encontrarmos vinhas enroladas em anéis, tipo uma cesta — kalathia ––  para proteger os brotos e frutos da parreira dos fortes ventos e do sol intenso nas ilhas gregas.

O brinde grego é Yia mas = à nossa saúde.

(*) Symposium era uma festa onde se bebia e se conversava, enquanto escravos serviam vinho e faziam apresentações de música.

(**) Santorini (Tira) – para alguns o local da antiga civilização Atlântica – é uma ilha marcada pelo terremoto e tsunami que abriram uma garganta nas montanhas em 1680 a.C.

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O Vinho e a Vinha (com trocadilho)

A presença da mulher no mundo do vinho é uma bela metáfora da evolução feminina. No início, lhes bastava uma folha de parreira (será?). Depois, no chamado Velho Mundo, no século XIX, entraram em cena as guerreiras do vinho.  Há quase 200 anos, por exemplo, três mulheres extraordinárias se destacaram: a viúva Clicquot, a Madame Pommery e a D. Antónia, brava fundadora da Casa Ferreirinha.

Eva

A primeira, perdeu o marido aos 27 anos, bem no início do século 19, e assumiu sozinha o comando da vinícola da família. E transformou a produção e o comércio do champagne num império. Tanto que liderou pessoalmente sucessivas comitivas internacionais pela Europa, promovendo o néctar. E chegou a exportar para meio mundo.

 

 

Veuve Clicquot

Curiosidade: em 1853, as primeiras garrafas de Veuve Clicquot chegaram ao Brasil encomendadas em carta escrita de próprio punho pelo imperador D. Pedro II.

Madame Clicquot morreu em 29 de Julho de 1866, aos 89 anos, deixando uma bem estabelecida marca de champanhe.

A segunda é a Mme. Pommery (1819-1890), pioneira do ramo a apostar nos rótulos desenhados por artistas e no design das garrafas. Uma tradição, como veremos na sequência.
Madame Pommery

E a Casa Pommery foi a primeira a produzir um champagne brut, em 1834. Pommery Brut Royal

A terceira, e apenas cronologicamente, foi a emblemática Dona Antónia (1811-1896), que naufragou num rabelo (aquelas barcaças que singram o Rio Douro levando o vinho do Porto) junto com o marido. Só que ele morreu e ela sobreviveu graças às sete saias (repare na foto), que lhe serviram de boia. Mas não se salvou sozinha: salvou o vinho do Porto, o carro chefe da Casa Ferreirinha. (Bem haja)

Antónia_Ferreira

Mas isso lá, do outro lado do Atlântico.  Por aqui, e falando do Brasil, só a partir dos anos 60 as mulheres começaram a “repartir” o mundo do vinho (branco ou tinto) com os homens, sobretudo ao eixo Rio-SP. Mas devagarinho: bebiam pouco, raramente e sem critério ou escolha pessoal de safra (tipo de uva, origem ou função — aperitivo, harmonização, celebração). Babiam mais por companheirismo (missào SER MULHER) do que pelo prazer de degustar um Chardonnay ou um Merlot. O champagne não entra nessa lista: era para as “Carmens e Dolores” do Café Soçaite. E a grande maioria nem sabia o que era um vinho espumante.

Lá pelo meio dos 80, no entanto, elas começaram a passar de figurantes a “artistas principais” no filme do vinho. Primeiro, como consumidoras quase passivas (alguém escolhia), depois enófilas, depois sommelières. Na minha turma da ABS-Rio, 1992, por exemplo, em cima do saudoso Enotria do Danio Braga, em Copacabana, tinha a Juarezita Santos, minha prima querida, pioneira das harmonizações no Quadrifoglio da Maria Angélica, no Jardim Botânico e, depois, na JJ Seabra, no mesmo bairro. Foi a primeira sommelière que me fez provar um vinho libanês, o Chatêau Musar.

Juarezita Santos

A seguir ninguém segurou mais: passaram a colunistas especializadas, autoras de blogs, livros, dirigentes de vendas …  como a competente e elegante Yoná Adler, representante da Mistral-Rio — quando não elas mesmas proprietárias de vinícolas.

É o caso da Marly Galvão, minha amiga e colega do Conselho da Camara Portuguesa do Rio, que comercializa os estupendos vinhos do Douro Dona Berta (Chico Carreiro) ou da Lorenza Sebasti, proprietária do Castello di Ama, no coração do Chianti, (Siena, Itália), que produz néctares como o branco Al Poggio IGT Chardonnay di Toscana 2015 ou o LÁpparita Toscana IGT 2013,  dois vinhos estupendos.

Mas voltemos á metáfora da abertura deste texto. A Eva nua, com ou sem folha de parreira, explícita ou sugerida,  sempre esteve presente no imaginário masculino, majoritariamente donos das mídias, como nessa campanha (mais francesa impossível) da Taittinger.

lìnstant Taittinger

Sem esquecer a ousadia da Casa Ramos Pinto, que ainda no início do século XX criou anúncios de forte erotismo, sobretudo para a época, como este que sugere duas mulheres prestes a se beijarem. Ou, seria um andrógino na outra ponta?

Ramos Pinto

Vida que segue.  Musa idealizada ou protagonista ativa, a mulher deixou de ser apenas rótulo ou ilustração e passou a apreciar vinho, conhecer vinho, discutir vinho e comprar vinho. E mais: provavelmente graças a elas, que ou pegavam leve, ou gostam de variar (!),  disseminou-se o hábito do vinho em taça (by the glass) , como nessa saborosa montagem da Mona Lisa contemporânea …

A Monalisa e o bordeaux

Finalmente e se pensarmos “lacanianamente” (significado x significante),  não é surpresa: todos os substantivos do vinho – menos o que o designa — são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a rolha, a safra, a garrafa, a taça… por isso, parabéns “meninas” por mais este 8 de março!

E que Baco nunca as (nos) desampare!

 

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Rio, 22 de fevereiro de 2018. Drummond pop star

Ando pelo calçadão de Copacabana de manhã cedo, no recorte da luz com talco deste fevereiro meio esquisito, meio agosto.  E encontro o nosso poeta-oceano sentado, calmo, com a fitinha do Bonfim no pulso direito.

Nota: a fita original foi criada em 1809 e logo ficou conhecida como a medida do Bonfim, porque media exatos 47 centímetros de comprimento, a medida do braço direito da estátua de Jesus Cristo, Senhor do Bonfim, o destaque do altar-mor da igreja mais famosa da Bahia.  A estátua foi esculpida em Setúbal, Portugal, no século XVIII e a “medida” era confeccionada em seda, com o desenho e o nome do santo bordados à mão, sendo que o acabamento era feito em tinta dourada. Era usada no pescoço, como um colar, no qual se penduravam medalhas e santinhos, funcionando como uma moeda de troca: ao pagar uma promessa, o fiel incluia uma foto ou uma pequena escultura de cera, representando a parte do corpo curada com o auxílio do santo (ex-voto).

20151019-Fitas amarradas no gradil
Como lembrança, então, este(a) fiel adquiria uma dessas fitas, que simbolizava “o braço de Cristo”.  Hoje, elas ficam amarradas no gradil da Igreja do Bonfim e não se sabe quando se deu a transição para o uso da fita no pulso. O certo é que lá pelos meados da década de 1960 esta nova “pulseira” já era comercializada nas ruas de Salvador e, de lá, em  todo o Brasil. Foi adotada pelos hippies como parte de sua indumentária e pelos  supersticiosos  de qualquer latitude nacional.

Mas tem mais!

Deu sorte ao poeta mesmo antes de usá-la. Tanto que raramente ele  fica sozinho. A estátua do Drummond hoje divide com a do Cristo Redentor as duas pontas mais emblematicas do Rio: o alto da montanha e a beira-mar. E turistas levam fotos aos lado dele como embaixo da Torre Eiffel. Inaugurada em 2002 ( eu estava lá!), a estátua caiu no bem-querer popular imediatamente. Mas o seu “making off”  é curioso! Pesquisando no Google, encontrei no blog do Instituto Moreira Salles (IMS) a historinha. Um dia de 1983, o fotógrafo Rogério Reis, da Veja, foi ao apartamento do Drummond na Rua Conselheiro Lafaiete e pediu que ele o acompanhasse ate à praia para uma pose que seria capa da revista. Chegando lá, sugeriu ao poeta que ficasse de costa para o mar. Drummond num primeiro momento não gostou e quis saber por que de costas para o mar?! E o fotógrafo o dobrou com argumentos de comunicação. Porque assim o leitor iria vê-lo — e ver o mar atrás. O mineiro não resistiu ao apelo de se vingar da árida Itabira!

Mal podia o Rogério imaginar que 19 anos depois o artista plástico (também mineiro)  Léo Santana iria usar essa foto para a escultura que eterniza o poeta em bronze. Eterniza e humaniza,  como nas obras de Rodin. Têm alma. Inspiram sentimentos familiares. E, no caso do Drummond (perna cruzada, camisa esporte),  desperta nas pessoas desejos de confidências. Camaradagem. Quase cumplicidades! (O que não acontece com generais a cavalo, espada em riste). Drummond virou o amigo-sem-pressa, o guarda-segredo, o vovô tolerante (que as crianças beijam a careca!) e o irmão de crendices (donde a fita!).

Volto pra casa pensando em como a vida às vezes arma o anticlimax. O Drummond “de verdade” que conheci razoávelmente e que o Wilson Figueiredo via entrar feito disco voador pela redação do JB para entregar a sua crônica era o sujeito mais “passa despercebido” que Minas exportou. Quase um espião se infiltrando silencioso e azul nas filas, onibus e elevadores para ouvir, interpretar, colher matéria-prima…

E a sua estátua é uma Anita, mais exibida que artista de novela, popular e querida!

Imagino que quando a noite vai alta, no entanto, ela (a estatua) também se sente só e quem sabe declama “José”.

E agora, Jose?

A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…

E agora, José?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rio, 21 de dezembro de 2016. Vinho com esse calor?

Parênteses: hoje é o primeiro dia de verão no hemisfério sul.
solstícios e equinócios
solstício de verão no sul

Ou seja, o sol cruzou o Equador e está mais próximo dessa banda da terra, jorrando luz e calor em cima da gente. O nome vem de sol + stício (parado). Isto é, o sol parece estacionado!
Uma digressão: a maioria das pessoas tem sonhos financeiros “para quando ganhar na mega-sena”. Pois eu tenho sonhos térmicos: morar no outono. Eu correria o mundo escolhendo os melhores outonos (a minha estação). Com neve em cima das montanhas, com lagos onde a cerração de manhã os transforma em tapetes, com sombra e frescor em castelos europeus — e até com chuva fininha no hemisfério norte…

Bom, adiante e respondendo ao título. Sim, com certeza, defendo vinho com esse calor.

Aliás, pergunto: algum baiano (já) deixou de comer vatapá no verão da Bahia? E por favor: reparem na usina calórica com que é feito!

Mais: algum carioca (já) deixou de comer uma feijoada – ou em restaurantes do centro, às sextas-feiras – ou a convite de parentes em um domingão iluminado alegando que estamos no verão?
Algum madrilenho – ou vá lá: europeu em geral, sobretudo “da antiga” – (já) deixou de beber vinho (muitas vezes em temperatura ambiente) em julho e agosto lá no Velho Mundo? E algum inglês deixou de lado o seu chá quando mandavam na Índia, mesmo com o sol enlouquecido de maio em diante?

Nãaaoooo.

Qual a explicação?

Não tenho a explicação científica. Mas o meu mestre-doutor Renato Kovach Kovach concorda com a minha premissa (repito: sem embasamento científico, ele fez questão de frisar) que é a seguinte: contrariamente ao que seria o bom senso alimentar, as grandes pimentas e especiarias aquecedoras são originárias de locais quentíssimos. Assim como bebidas. A velha e boa tequila, por exemplo (em mexicano é masculino – el/un -) nasceu em Jalisco, Guadalajara, lugar quente e úmido; as grandes cachaças brasileiras, idem. São provenientes do lado norte de Minas; do lado sertão da Bahia – Januária, por aí; e da escaldante região dos canaviais nordestinos. Aqui no nosso Estado do Rio, elas são produzidas na Costa Verde, no Vale do Café, em Parati, isto é, litoral e vales tropicais.

E se estendermos o raciocínio às bebidas não alcoólicas, o raciocínio é o mesmo: algum brasileiro já deixou de beber o seu cafezinho fumegante (mesmo do sudeste pra cima) porque estamos em dezembro? E, lá embaixo, algum gaúcho(a) esqueceu o seu chimarrão no escaldante verão de Porto Alegre, ou nas praias lá do sul e até daqui, no Rio?

chimarrão na praia

Minha leitura: 1) o calor provocado por líquidos mais quentes do que a temperatura do corpo joga a favor do bem estar orgânico; 2) o calor faz suar e a perda de água dá sede. Bebe-se água e o corpo se reidrata.

Doutores, nutricionistas e entendidos — por favor — e-mails para este blog (www.jblog.com.br/reinaldo).

Conclusão: sim, pode-se beber vinho no verão. O ideal é que se esteja (e permaneça, em ambiente refrigerado) se for tinto. Nesse caso, recomendo um tinto leve, com graduação alcóolica em torno dos 12º, um pouco mais no máximo.

Mas, preferencialmente, vinho branco (vinho tranquilo ou espumante) ou rosé, idem. São vinhos menos calóricos porque não “carregam” o tanino, músculo dos tintos. E, por isso mesmo, devem ser tomados à temperaturas que variam de 4° a 6º para os espumantes e 8º a 12º para brancos e rosés.
vinho rosé

Outra pedida é o Portonic. Uma dose de vinho do Porto seco, branco, água tônica, gelo e uma tira de casca de limão ou laranja, a cavaleiro no copo!
portonic

De resto o verão é uma bela oportunidade para não complicar a vida: beba com moderação, beba feliz. Seja gentil.

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Rio, 14 de dezembro de 2016. Da alimentação à gastronomia

Aliás, qual a diferença?
Gastronomia é título da comida quando ela é ingerida não apenas para saciar a fome, mas para agradar ao paladar – e outros sentidos: visão, olfato, às vezes tato – e proporcionar prazer. Prazer orgânico, tipo primeiro beijo na boca, quando é a caseira bem feita. No fogão à lenha, por exemplo.

Ou emoção plena: os banquetes pluri-sentidos. Requintadas refeições em determinados cinco estrelas no eixo da apoteose gourmet . Chegam a desfilar 10 pratos e até mais pratos, (isso sem mencionar as mesas orientais) em que a escolha do serviço: toalhas e guardanapos, talheres, taças e arranjos, altura de mesa e cadeiras e a distância entre cada “ilha”, se casa como bailarinos de tango com a música ambiente.

O ritmo do maître, sommeliers e garçons, a iluminação específica e a que escorre das paredes, a temperatura da sala e até ao tom de voz da equipe. Tudo e todos treinados para proporcionar uma experiência teatral, cuja grand-finale é o desfile militar dos pratos — harmonizados com pães, azeites, água e vinho. Suspense e êxtase.
Quase sempre em variadas e pequeníssima porções, como esta “epifania pagã” no Per Se em Nova Yorque há alguns anos atrás.

Mas antes não era assim.
Na busca pelo alimento e para escapar das feras, os nosso tataravós-famintos construiram armas de caça (armas, arpões, lanças, redes de pesca, arcos, flechas, armadilhas) e percorreram toda a escala do cru ao cozido, do perecível à conserva, do facão ao garfo-e-faca.
paleolitico_fogo
Como observam as historiadoras Dolores Freixa e Guta Chaves, além disso, esses primeiros habitantes eram nômades e tornaram-se sedentários; eram caçadores e tornaram-se pastores. Matavam para comer e passaram a criar animais e cultivar a terra. Do excedente, iniciaram trocas — gerando o comércio. E este, junto com as guerras, dominaram outros povos, ora nos países de origem, ora formando novos países. E estes se associaram e formaram civilizações.
Bingo!

Mas o conceito de gastronomia acompanha a marcha das sociedades (para frente e para trás) e, de certa forma, estamos de volta para o futuro. Ou seja, antes, no campo, o fogo era o polo aglutinador.
Era em torno dele que se preparavam os alimentos e se reuniam os nômades. Mais de 10 mil anos depois, atualmente, ele continua a boia de luz não mais no chão mas nas cozinhas transparentes do século XXI.
É impensável um restaurante estrelado da atualidade não exibir uma cozinha-aquário, aonde chefs e cozinheiros trabalham à vista de todos, os presentes e os internautas, como em um making-off de artistas no camarim.
cozinha aparente

A comida servida em público não é mais, apenas, um ato de nutrição. É uma experiência cinematográfica. Em alguns restaurantes, uma mini odisséia no espaço, com efeitos especiais.

E aí, a pergunta: depois de anos de culinária tradicional, da malograda “nouvelle cuisine”, da molecular, autoral, slow food, temática, vegana, qual será o próximo espetáculo?
Restaurantes em que os ingredientes chegam à mesa com etiquetas, selos de qualidade informando, por exemplo, que os ovos orgânicos são “pintos” de galinhas de altitude que ouvem música clássica? Carnes com GR Codes remetendo a um vídeo mostrando o abate do boi (com veterinário-psicólogo informando o grau de sofrimento do animal?).
Além de alimentos com nome, sobrenome e certidão de nascimento (ou atestado de óbito: horrível!)

Envie seu palpite para este blog!

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Rio, 8 de dezembro de 2016. Portugal, a bola da vez

Em 1965, o jornalista David Nasser escreveu um livro que chamou de “Portugal, meu Avozinho”. E todo mundo achou normal, inclusive os portugueses.
Hoje isso seria um disparate tão inapropriado como (ainda) chamar a China de o tigre adormecido, ou o Brasil de o país do futuro. E outras parvoices superadas.
Portugal é a bola da vez, repito, no novo mapa da Europa — pelo menos para os brasileiros. E não apenas porque apenas 7.482 kms separam o centro do Brasil do centro de Portugal em linha reta (ou cerca de 9h de voo), mas porque é mais fácil encontrar brasileiros em Lisboa e Cascais do que nórdicos, ingleses e outros europeus “lá de cima” (com ou sem Visa Gold).
linha reta BR Portugal
E tudo isso vem a propósito do aniversário dos 106 anos da Câmara Portuguesa do Rio, festejado neste dezembro no Palácio São Clemente.

A nossa Câmara, a primeira criada no mundo e à qual o novo governo português de então (1911) deu grande apoio — um dos atos da primeira República de Portugal, chefiada por Manuel Arriaga Manuel_de_Arriaga_-_Fotografia_Vasques e que encontrou todo o suporte do nosso então presidente, Hermes da Fonseca (marechal que casou-se já velho com a artista Nair de Tefé, que promovia festas até de manhã no Palácio do Catete e, mais tarde, construiu o primeiro cinema na Av. Atlântica, que batizou com o seu nome às avessas: Rian) Hermes e que desde então funciona a pleno no Rio.

Mas por que os dois presidentes deram tamanha importância a uma Câmara de Comércio portuguesa na capital do Btasil? Porque segundo o belo livro-álbum encomendado pelo presidente anterior da Câmara, Paulo Elísio de Souza para celebrar o centenário da CPCI-RJ — A Outra Margem do Atlântico — já em 1894 estimava-se que os portugueses tinham mais de 55% de todos os estabelecimentos comerciais ou industriais registrados no Rio de Janeiro. O que representava quase 70% do capital circulante na praça. E essa “elite lusa” não cansava de investir na sociedade carioca-brasileira, criando diversas associações, como a ACRJ (hoje ACRio), o Mercado de São Sebastião, o antigo Centro de Abastecimento e Distribuição do Estado da Guanabara (Cadeg), o Mercadão de Madureira, etc.

Outros “patrícios” criaram firmas-empresas emblemas do seu tempo, que atuam até hoje com sucesso, como a Confeitaria Colombo em 1984 (Manoel Lebrão = “O freguês tem sempre razão”) Manoel Lebrão (vejam a pinta “do gajo”, imortalizado em bronze na sua aldeia natal, Vila Nova Cerveira, “na terrinha”) ou a Souza Cruz, criada e tocada pelo Albino Souza Cruz, que se tornou sócio do Joquei Clube Brasileiro e amigo dos figurões que o frequentavam, entre eles o Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, o interventor do RGS quando vinha à capital, Flores da Cunha e tantos outros “badalados” da alta roda do Rio da época.

Albino

Adiante: Portugal de hoje. Em uma fase da economia criativa em que tanto se fala em mobilidade urbana e infraestrutura, Portugal dá banho. E em energia eólica, desde o fim dos anos 80, é um exemplo. O que transformou o país de uma nação de fado e passado em “hub” para o resto da Europa. Mais globalizado do que muitos outros mercados mais ao norte.

No que concerne as relações bilaterais com o Brasil, desde os anos 90 houve grande incremento das importações de produtos primários portugueses e, mais recentemente, tecnológicos: foi lá que aprendemos o inovador sistema de cobrança de pedágio eletrônico, por exemplo. Ou a construir fachadas modernas, que permitem visão de dentro para fora e vice-versa, como as que serão vitrine do novo MIS, em Copacabana, obra da portuguesa Seveme. E mesmo cidades com imagem de anteontem, como Braga, são hoje polos de TI, conectividade e experimentos no campo da inteligência artificial e robótica.

Na outra mão e da nossa parte, temos oferecido boas oportunidades para o investimento português no Brasil, sobretudo nas áreas têxtil, de energias alternativas, construção civil, turismo e telecomunicações. Tanto que o Brasil é, atualmente, o principal destino do capital português fora da Europa.

Mas, por tudo isso e na mão dupla, Portugal e o Brasil somam, atualmente, um mercado de cerca de 250 milhões de pessoas que falam português e “moram” — como queria Pessoa — na pátria dessa língua. E as caravelas que ajudaram Portugal a “dar novos mundos ao mundo”, segunda a feliz expressão de um empresário português, nos séculos 15 e 16, foram “promovidas” às fibras óticas da internet (a caravela do século XXI) que nos permitem conectar, em tempo real, esse contingente que habita nove países em cinco continentes e forma a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Bem haja!

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Rio, 28 de novembro de 2016. Cuba Libre?

Não dá para esquecer. Entre os personagens que povoaram os extraordinários Anos 60 (Anos Dourados) no Rio de Janeiro, haviam os locais — a energia do JK, o doido do Jânio, Maria Esther Bueno, Pelé e Garrincha e os que vinham pelo jornal, cinema e TV preto e branco: Kennedy, Mao, Beatles e o eletrizante Fidel Castro. Incendiava o nosso peito adolescentes (eu tinha 15 anos e em diante), tanto quanto a motocicleta do Marlon Brando, o porche do James Dean. O nome do jogo: era liberdade. E as barbas do Fidel em Sierra Maestra eram o outro nome desse jogo.
Fidel em Sierra Maestra

A liberdade 24h. Da mini saia de Mary Quant à maconha, do biquini à bossa nova, tudo era um hoje — que a gente achava que não precisava de amanhã.

Sim, mas e daí?

Daí que surgiu no Rio um drinque chamado Cuba Libre. Já existia, é claro: surgiu em Cuba … muitos anos anos antes. Na época da independência da ilha (1895-1808), em que os EUA apoiaram os cubanos contra a Espanha. Mas chegou aqui com o prestígio de “derrubar ditadores” (no caso o Batista!). E o nome parecia uma senha!
Cuba Libre

É a mistura do rum – o original, cubano — com uma Cola-Cola, gelo e limão. Em toda a minha vida eu devo ter tomado umas trezentas Cuba Libres!

Mas as meninas — ah! as meninas do meu tempo! — preferiam coisas mais leves. Quando não era coquetel de frutas, era licor de peppermint com “schnapps” mas, como não se achava, ia com água tônica mesmo e muito gelo. Um long drink.
pepper

As mais heavy metals iam de Hi-Fi (vodka com Fanta laranja) e sangria. Vinho nem se falava entre jovens, caipirinha ainda “não tinha nascido” e o chope às vezes.

E haja rosto colado (y otras cositas más…) ao som de Frank Sinatra, Pepino di Capri, Ray Charles, Adamo, Sacha Distel, Brigitte e/ou … pauleira: Elvis, Bil Halley e seus cometas e a nossa Jovem Guarda.

Saudades?

Não. Já lá vão mais de cinquenta anos. Eu teria que ter saudades de meus pais, das lutas estudantís, do Mello e Souza e da Faculdade Nacional de Direito, das namoradas … é melhor deixar quieto.

Ia doer muito.

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Rio, 24 de novembro de 2016. Da série: você sabia?

1) O vinho é mais feminino do que masculino. Até semanticamente, porque tirando o substantivo que o designa, todos os outros são femininos: a vinha, a uva, a colheita, a safra, a garrafa, a taça … e a folha de parreira que cobriu (?) dona Eva.

A Monalisa e o bordeaux lìnstant Taittinger Eva

2) Uma medida de vinho — uma garrafa ou um copo — tem muito mais água do que álcool.
ÁGUA – Cerca de 80% do vinho é constituído de água. elemento. O vinho pode, portanto, contribuir para a hidratação.
AÇÚCARES – No processo da fermentação, o açúcar da uva representado pela glicose e frutose, é transformado em álcool, porém, uma certa quantidade residual permanece, cerca de 1 a 3g/l nos vinhos secos.
VITAMINAS – A uva contém em sua composição uma série de vitaminas que são transferidas para o vinho. As principais detectadas são: B1 (TIAMINA – B2 (RIBOFLAVINA) – NIACINA (ÁCIDO NICOTÍNICO) – B6 (PIRIDOXINA) – B12 (COBALAMINA) – A (RETINOL) – C (ÁCIDO ASCÓRBICO). Cada uma delas funcionando como catalisadores nas reações orgânicas e ação preventiva de doenças específicas, (como a Tiamina na prevenção do Beri-Beri).
SAIS MINERAIS – O vinho possui uma quantidade significativa de oligoelementos como: Potássio, Cálcio, Fósforo, Zinco, Cobre, Flúor, Alumínio, Iodo, Magnésio, Boro, etc.
ÁLCOOL ETÍLICO – A participação do álcool na composição do vinho gira em torno de 7 a 14 g/litro, nos vinhos secos, que são os mais consumidos. Esse dado vem expresso no rótulo em % p/Vol. ou GL (Gay Lussac), que traduz a porcentagem ou teor de álcool por volume.

20111119-a cor da uva Gamay

3 Pode-se fazer vinho branco com uvas tintas, mas não se pode fazer vinho tinto com uvas brancas. E isso porque quando se colocam os bagos de uva nos tonéis, e que eles começam a ser prensados – seja com o pé, a chamada “pisa”, seja por máquinas – o primeiro líquido que sai é branco, como a polpa da uva.
Então, se imediatamente se retirarem as cascas de uva tinta, as polpas e o mosto estarão produzindo um vinho branco; se esperarmos algumas horas (de 6 a 12h), estaremos produzindo um vinho rosé.
Mas o inverso não ocorre. Se prensarmos as cascas de uma uva branca ela não produzirá um vinho de outra cor.

4) As garrafas de vinho têm, na sua imensa maioria, 750 ml porque o vidro soprado foi descoberto pelos artesãos de Murano(Veneza) no século XVII. E essa medida era a maior autorizada pelas autoridades, para evitar que os sopradores sofressem embolia pulmonar.
Como hoje o processo é industrial, pode-se fazer a Magnum (1,5 litros e até de 12 litros. Veja abaixo (aquelas pequeninhas, de avião, nem menciono).

5) Os outros tamanhos das garrafas de vinho, são: meia = 375 ml; magnum (acima); jeroboam = 3 lit; rehoboam = 4, 5 lit; matusalem = 6 lit; salmanazar = 9 lit; balthazar = 12 lit
tamanho das garrafas

Obs: primeiro: tem garrafas ainda maiores, (nabucodonossor, melchior, mas aí já é raridade para excêntricos); 2) há variedade de nomenclatura de países para países: esta é a tabela francesa; 3) também para as garrafas de champagne, há outra classificação. Mas o que importa está acima.
Saúde … e força, para erguer uma ampola de 12 litros!

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Rio, 17 de novembro de 2016. Um vinho solto, sem ontem nem amanhã

Há muitos anos reproduzo, tentando atualizá-lo, o post da “chegada do Beaujolais”. E geralmente (re)começo assim: hoje é quinta-feira, a terceira de novembro, data em que às 12.01 da madrugada o Beaujolais 2016 será distribuído por mais de 100 países.

No Japão, o maior importador de Beaujolais do mundo, com sete milhões de garrafas, o lançamento se dá num resort em Hakone, a oeste de Tóquio, numa banheira cheia de vinho…
Beaujolais no Japão

Essa distribuição é “militarmente” planejada. Ainda hoje, 66 anos depois, milhares de pessoas se reúnem à meia-noite e um minuto para prová-lo. Mas nunca antes. Contam que o presidente Mitterrand recebeu o primeiro-ministro alemão numa terça-feira anterior à quinta do lançamento e resolveu surprêende-lo com uma prova antecipada. Não conseguiu, sendo presidente da França!

Ele é produzido 100% com a uva Gammay.

E ao contrário do ciclo milenar da produção de um vinho: colheita, prensagem, armazenamento (mais de um ano), engarrafamento e distribuição, um punhado de produtores de Lyon decidiu, desde 1951, pular essa etapa — e acertaram no milhar! Bolaram uma jogada de marketing espetacular: fixaram uma data-réveillon para a distribuição dos Beaujolais no mundo. Como já disse, no primeiro minuto da terceira quinta-feira de novembro, em toda a França e em todos os distribuidores da marca, no mundo, um cartaz similar anuncia:

Le Beaujolais Nouveau est arrivé

Ou seja: faz-se a colheita no fim do verão e, “vite, vite”, a vinificação e o engarrafamento. Cerca de 2 meses depois, sem barricas, sem descanso, sem maturação, milhares de garrafas têm que estar prontas para embarcar mundo afora. E, pelo menos idealmente, devem ser consumidas até o 31 de dezembro do próprio ano.

Rótulo?
Beaujolais 2016
Esse é o rótulo do Beaujolais engarrafado pelo veterano Joseph Drouhim, distribuído no Brasil com grande competência pela Mistral.

Cor?
Um violeta claro e brilhante como o olhar da Elizabeth Taylor. <
Liz Taylor violeta

Paladar?
Como os demais, tem gosto de compota (sem açúcar) de frutas do campo, com predomínio de amoras, framboesas, cassis e morango. Porém (eu não desisto), lá longe tem “sugestões” de banana (terebentina), no final da boca. Mas é agradável, preenche o paladar e apresenta aspereza.

“Não morde”, dizia um crítico. É uma espécie de caramelo de vinho.

Moral da história: esqueçam o discurso. O Beaujolais é um vinho jovem, sem memória nem responsabilidade. Está mais ligado ao hedonismo do que à degustação tradicional. Não tem pedigree, nem se propõe: é um vinho solto, sem ontem nem amanhã.

Simples assim.

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Rio, 9 de novembro de 2016. Um chef para Donald?

Do ponto de vista de gastronomia — como matriz de prazer e poder — O Trump tem dois caminhos. A mediocridade ou … veja o último parágrafo.
Donald Trump

Donald Trump perdeu o irmão mais velho por álcoolismo e tomou horror à qualquer bebida que leve álcool. Além disso, foi criado por um pai protestante, frequentando o culto aos domingos no Marble Collegiate Church, em Manhattan. Lá, se impregnou dos conceitos do pastor Norman Vincen Peale, o célebre autor da Força do Pensamento Positivo. E o menino Donald nunca mais esqueceu uma lição que ele repetiu como um mantra na sua bem sucedida carreira.
“Formule e imprima na sua mente um retrato vitorioso de si mesmo. Mantenha viva essa imagem, com tenacidade. Nunca permita que ela se apague ou desapareça. Sua mente vai reter e atualizar esse retrato. Não construa nada que seja um obstáculo à sua imaginação”.

Deu certo.

Mas voltemos ao tema. Poder e gastronomia não necessariamente estão associados – há poderosos que ficaram longos anos no alto comando de seus países e nunca se soube que tivessem algum pendor enogastronômico – imperadores romanos, reis, rainhas (Vitória, Elizabeth da Inglaterra), ditadores (Perón, Getúlio, Salazar, Franco) e, na outra ponta, outros que transformaram a “sala de jantar” numa marca de sua época.
Por exemplo: na foto, um craque. Giscard d’ Estaing espeta no peito do Paul Bocuse a Legião de Honra.
Giscard condecora Bocuse

Até porque para um gourmet (por prazer ou cálculo) uma refeição especial deve ser harmonizada com vinhos adequados e dela fazem parte o que hoje chamaríamos de valores agregados. A iluminação, a disposição dos pratos e talheres + arranjos de flores, o número e o bem-vestir dos convivas, o timing dos serviços e até o tom de voz das conversas. E a intenção final do encontro.

Em suma: é uma experiência estética que pode se esgotar em si mesma ou repercutir em algum objetivo consequente: conquista amorosa, facilidades empresariais-financeiras, relações públicas, diplomacia de relacionamento, prestígio e influência: ou seja, tudo de que o poder também gosta!

Três exemplos.

Primeiro – pasmem – nos EUA. O primeiro presidente americano, George Washington, que governou de 1789-97, adorava vinhos Madeira e tanto ele quanto a mulher, Martha, dificilmente jantavam a sós. Sempre tinham convidados, alguns estrangeiros inclusive.      um dolar, sorte good luck

E  valorizavam a matéria-prima americana. Incentivaram o cultivo de esturjões do Potomac, que serviam na “chouder” Chowder uma sopa de amêijoas ou peixe, tradição da Nova Inglaterra. E como ele um grande fazendeiro, a boa carne de boi confinado.

Segundo: já o terceiro presidente, Thomas Jefferson (1801-1809),  horticultor, líder político, arquitetoarqueólogopaleontólogomúsicoinventor e fundador da Universidade da Virgínia, aprendeu nos tempos de embaixador de  seu país em Paris a gostar de bons vinhos e finas iguarias. E quando se tornou presidente, mandou buscar da França dois chefs – Julien e Lemaire – que faziam o encanto dos convivas na Casa Branca ( foi ele que a inaugurou). Ele adorava o especialíssimo vinho de sobremesa francês Château d’Yquem e tentou cultivar uvas vitivinícolas na Califórnia mas nunca teve o sucesso desejado.

Thomas Jefferson

Terceiro: mas o primeiro casal campeão de charme (em geral) e espetáculos-gourmet em especial, foram os Kennedy (1961-1963). Ele e Jacqueline contrataram o chef também francês René Verdon e a sala de banquetes da Casa Branca brilhou com os jantares de gala ou de Estado, aonde o chefe do cerimonial tinha instruções de mesclar milionários, artistas, nobres europeus, políticos influentes – sem falar nos chefes de estado e suas comitivas.

casal Kennedy

Observação: o segundo casal presidencial campeão de charme são os Obama, Michelle e Barack. Vestem-se bem, têm estilo.
casal Obama

Mas em termos de enogastronomia, fracotes. Já foram fotografados no Oyamel, de cozinha mexicana e no Jaleo, de cozinha espanhola, além de indiano, gregos, etc. Todos em Washington. Mas (me parece) mais um extensão do instinto pessoal do Obama de presença na mídia e de acabamento da imagem de um presidente-estadista. Mas que lá no fundo ele aprecie iguarias e néctares, I doubt it.
Embora Michelle tenha contratado um chef — Sam Kass — que fez a diferença com a sua cozinha sadia, a sua campanha por uma lipoaspiração na merenda escolar nas escolas, o seu horror a frituras, cremes e cristalizados.

Conclusão: embora pessoalmente o Donald Trump seja abstêmio, como presidente dos EUA ele deve prestigiar o vinho americano (praticamente os 50 estados produzem vinhos), a riquíssima variedade de ingredientes e insumos da moderna mesa americana e a escola de chefs que lá (NY, Boston, Chicago, Miami) é tão gabaritada como o Cordon Bleu de Paris. E, voltando ao título, para isso, eleger um deles para chefiar a cozinha da Casa Branca e organizar jantares memoráveis.

Nota: o relato desses três presidentes americanos e seus pendores gastronômicos, foi tirado do livre A Raínha que virou Pizza, do excelente crítico de gastronomia, jornalista e gourmet  J.A. Dias Lopes, que tive o prazer de conhecer e com quem convivi quando ele diria a Revista Gula, do grupo do Jornal do Brasil aonde eu trabalhava. O título se refere à raínha Margherita di Savoia (1851-1926), mulher do Rei Umberto 1º da Itália, que tornou célebre a pizza encimada por tomate, mozarela e manjericão, cores da bandeira de seu país.

Vida que segue

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